Arquivos

Celebrar é diferente de rememorar

Março de 2019 está quase a findar e, segundo alguns, o Brasil ainda está com um presidente que não conseguiu entender a importância do cargo na totalidade. Embora esteja exercendo alegremente a tarefa de viajar em visita aos seus colegas, dirigentes de países amigos (EUA, Chile, Paraguai) enquanto se prepara para outras viagens, vai ao cinema no horário de expediente. Também continua aficionado pelo uso do tele móvel, como dizem os nossos membros de uma de nossas matrizes de cultura, e nela fica trocando farpas com jornalistas, e com o presidente da Câmara, de quem é aliado, mas está a esforçar-se para torna-lo adversário, ou inimigo.

O século XXI, em nosso país, está tomando uma característica interessante: todos os que tomam posse querem dar início à contagem do tempo, sugerindo um momento mágico, tomando a sua posse como o início de um novo calendário. Daqui a alguns anos iremos contar o tempo como os evangelistas: “no segundo ano do império de ……. Augusto, ocorreu a matança das esperanças guardadas, etc.”. Mas como dizia, além de consultar constantemente o seu tele móvel, o atual presidente gosta de viajar e aprontar alguns vexames, como, ao lado de presidente dos EUA, dizer implicitamente que, pelo seu gosto, apoiaria uma intervenção militar na Venezuela; no Paraguai fez um discurso elogiado um ditador daquele país, e o presidente do Paraguai ouviu calado por razões protocolares, mas, tão logo percebeu que seu visitante saiu do espaço paraguaio, lamentou ter tido de ouvir certas sandices. Semelhante situação ocorreu no Chile. Pelo que estamos a observar, um dos principais prazeres do presidente do Brasil é causar constrangimento à maior parte dos brasileiros. Seu amor por ditadores parece ser tão ardoroso que, penso, ele deverá visitar os amigos do ex-presidente Luiz Inácio nas terras africanas. Mas isso dependerá do que dirão os seus filhos. Veremos o que nos espera em Israel e na China.

Causou espanto ter o atual presidente emulado as Forças Armadas a celebrarem o golpe de 1964, pois, diz seu porta voz, ele não entende que houve erro ou excesso dos militares naquele evento, agora parte da história brasileira. Creio que o nos causa essa irritação e espanto, não é tanto a rememoração do fato, mas a intenção que está implícita. O atual presidente fez carreira militar e, tem como herói pessoa que foi torturador durante os momentos mais dolorosos da ditadura civil-militar iniciada em 1964. Como eles são muitos os brasileiros que sentem saudades do tempo em que direitos humanos não eram respeitados e, com o sacrifício de muitas vidas, fortunas foram construídas nas especulações financeira e imobiliária daquele tempo que, não há como negar, veio a criar estruturas que permitiram crescimento econômico e uma certa integração nacional. Entretanto, a sociedade busca a criação de um sentimento de regeneração das dores daquele período e, essa ação do presidente os faz temer o pior. Temos que reagir sempre que algo semelhante venha ocorrer; não podemos ficar na expectativa de que o pior jamais virá a ocorrer.

A reação da sociedade, ainda que não a elite econômica, fez o presidente buscar outros verbos para substituir “comemorar” e ‘celebrar’. Ouvi-o dizer rememorar. E sempre podemos rememorar, até para que não se repita o que se rememora.

Mas um presidente deve lembrar que, embora continue o mesmo homem, suas palavras carregam a responsabilidade da função que ele buscou e lhe foi confiada: governar pensando em todos os brasileiros, não apenas para o grupos de seus amigos e familiares.

Curta e compartilhe:

Comments are closed.