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As chuvas e os crimes sociais do verão

Mesmo quando apresenta-se com 29 dias, fevereiro é um mês pequeno, o menor de todos, e muito esperado por alguns por conta do grande festival que conhecemos e vivemos como Carnaval. Este ano o carnaval ocorrerá em março, mas em algumas cidades, ou em partes de algumas cidades, as pessoas treinam, preparam-se, para viver plenamente a loucura que se diz existir nos três dias dedicados aos prazeres da carne.

Fevereiro começou ainda com o rescaldo do recente acidente em Brumadinho, MG. Restos do minério retirado da terra e vendido, principalmente aos chineses, guardado em barragem situada metros de altitude acima de uma cidade, desceu montanha abaixo, tudo matando, tudo destruindo, tudo contaminando. Muitas pessoas morreram e a cidade foi sensivelmente afetada, pois perderá a atividade que a fez surgir. Pode ser que venha a Tornar-se uma cidade-zumbi, quase morta. Sua longa história não permite tal afirmação. Originária da atuação de bandeirantes no final do século XVII, esta cidade cresce com a mineração do ferro, após a criação da Companhia Vale do Rio Doce, durante a ditadura de Getúli0 Vargas, e faz parte do esforço de criação da uma indústria nacional. Situada no vale do Rio Paraopeba, suas madrugadas e manhãs são famosas pelas brumas que cobrem o povoado/cidade, de onde lhe vem o nome. Espanta a possibilidade de sua morte, a lembrança de que no século XIX, um inglês, o Senhor Thimoty, ou o Senhor Tim, que foi sendo chamado de Nhô Tim e, Inhotim. Nas terras de Nhô Tim, em 2004, o empresário de mineração siderurgia e arte, Bernardo Paz, guarda no local sua bela coleção de arte, e em 2006 a torna de acesso ao público, e recentemente, em 2014 foi tornado museu a céu aberto da Arte Contemporânea. Inhotim, tem origem na ação predadora da caça ao silvícola e ao ouro, cresce da retirada do ferro de suas entranhas, cujo rejeito agora mata o Rio e suas margens, mas pode ter seu futuro garantido pela arte e pela reconstrução da natureza, que vai tomar algum tempo.

Este desastre anunciado, o rompimento da barragem de rejeito de ferro sobre Inhotim, não tem sido um caso isolado na trajetória de Minas Gerais. Faz menos de uma década que, a cidade de Mariana sofreu o rompimento de uma barragem de rejeito que, parece tem matado o Rio Doce, que alimentava a região. Agora, a morte do Rio Paraopeba, pode vir a atingir o Rio São Francisco. Desastres que ocorrem após a ação descuidada dos empresários em diversas épocas, são comuns na construção do Brasil, pois os que orientam os caminhos do “progresso” parece acreditar que a natureza é capaz de se recuperar eternamente. Em decorrência desse entendimento, os projetos de “progresso” do Brasil têm sido realizados em função do apetite pantagruélico dos seus dirigentes, por isso não deixam espaços para que os menos poderosos, os índios, os trabalhadores de suas empresas possam se acomodar decentemente: os poderosos apossaram-se de tudo, e o resultado são favelas, vilas operárias que amontoam em pouco espaço centenas ou milhares de pessoas; numerosos são os que constroem em morros que estão sempre ameaçados pelas forças da natureza, como assistimos anualmente durante as chuvas de verão que iniciam cada ano, no Sul do Brasil e, em junho/julho no Nordeste. E quando ocorrem os donos dos meios de comunicação, junto com os governantes que foram financiados pelos poderosos, ordenam que as palavras constantemente repetidas seja, “tragédia”, “acidente”, “fatalidade”, de maneira que seja esquecido que o que ocorre a cada ano são atos criminosos.

A cada ano o Rio de Janeiro oferece a visão dos crimes que são cometidos ao forçar parte de sua população a viver em condições infames, nos morros que circundam a cidade. A cada ano casas caem e pessoas são feridas ou mortas por viverem em “locais de riscos”, como dizem os que construíram seus condomínio locais sem riscos. Este ano aconteceu de novo, e as chuvas, como fizeram a trinta, cinquenta e setenta anos, ocuparam a cidade que foi sendo construída sobre riachos e rios. É maravilhoso o panorama da natureza, é maravilhosa a sua ação sistemática de lembrar que os homens precisam encontrar um limite para as suas ações e cometam menos atos criminosos contra a natureza. Sim, os humanos são parte da natureza.

Ato criminoso é que ocorreu também nas acomodações que do Clube Regatas Flamengo, simplesmente flamengo, do Rio de Janeiro, chama de Centro de Treinamento, CT. Nesta semana 10 jovens foram surpreendidos na madrugada por um incêndio no dormitório. Jovens entre 14 e 16 anos foram machucados, seis deles morreram. Nos primeiros momentos as palavras “tragédia” , “fatalidade” provocaram ondas de simpatia ao clube e seus dirigentes, pois este “terrível acidente” é muito doloroso para “os esportes e o futebol brasileiros”, disse famoso atleta. Aos poucos chegam notícias de que a construção onde dormiam os jovens atletas não estava no projeto inicial; depois o Corpo de Bombeiros não havia dado permissão para funcionamento daquele “dormitório”; em seguida se sabe que a Prefeitura da cidade já havia embargado diversas vezes aquela instalação. E o que era um “acidente”, uma “tragédia’, uma “fatalidade” que colheu a vida de seis jovens e os sonhos de dez famílias, finalmente é visto como o que é: um crime. Os dirigentes do Flamengo (talvez outros clubes tenham comportamento semelhante) usam os sonhos de jovens adolescentes pobres, nascidos nas periferias amontoadas em torno das grandes cidades, e dos sonhos de seus pais para aumentar suas ganâncias, seus ganhos. Os dirigentes dos clubes de futebol, como os pais dos adolescentes, sabem que o estudo não garantirá aos jovens condições de vida que a televisão e os meios de comunicação em geral promovem e fazem os jovens desejarem. Mas o futebol pode ser um caminho de esperança para os que nasceram em desvantagem social, como é sempre lembrado nos programas esportivos dedicados a promover os sonhos de alguns, de serem atletas e poderem comprar uma casa para seus avós, sua mãe, seus irmãos. Em um mundo gerado pela ganância dos bandeirantes, os pais estão quase sempre ausentes na maioria dos relatos.

As águas de Janeiro e fevereiro deste ano de 2019 promoveram lama, sofrimentos, mas podem ajudar a tirar parte da sujeira dos olhos sociais que não permitem perceber a luz da realidade histórica de nossa sociedade.

Olinda, 08 de fevereiro de 19

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