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A partir de Brumadinho, lições possíveis.

O mês de janeiro nos trouxe muitas surpresas, o que não surpreende, pois é próprio de cada dia ter as suas específicas novidades e propostas de vida e à vida. Pela primeira vez experimentei ir ao oceano, e o fiz em uma barca de pescador, para além de duas horas de navegação. Foram experiências incríveis, maravilhosas. No mesmo dia, enquanto eu desfrutava da beleza do mar, ocorria o desastre da barragem de Brumadinho, MG. A velocidade das notícias solapa paraísos individuais. A simultaneidade parece nos levar a vencer os espaços físicos, as informações nos chegam a velocidades espantosas, e nos colocam em ciclones, nos fazendo girar e viver tempos diversos e distantes como vizinhos. Desde os anos sessenta experimentos momentos como esse e sempre fico parado, tentando compreender o que se passa ou se passou.

A primeira vez que me senti nesse ciclone está relacionada com a Guerra dos Sete Dias, da qual tive conhecimento quando retornava de uma viagem ao interior alagoano, e o rádio de pilha informava que estava havendo mudanças territoriais e políticas no Oriente Médio, tão distante, mas que invadiu aquele coletivo, e me recordo de uma frase mais ou menos assim: “poxa, a gente não pode se afastar e o pessoal faz uma guerra sem nos avisar”. Era ironia, era surpresa, era a descoberta da impotência e da nossa aparente insignificância no drama da humanidade. Não, não era aparente, somos insignificantes, mesmo. Em muitas outras ocasiões essa experiência se repetiu, cada vez com novos equipamentos de comunicação, cada vez mais aperfeiçoados e, atualmente, caso se deseje, pode-se saber de tudo que ocorre no mundo, ao preço de ficar ausente do que acontece na sua vizinhança, na escola de seu filho, na reunião do Departamento da empresa em que trabalha, no quintal de sua casa, e mesmo na sala onde você está conectado com o mundo exterior.

Uma das minhas catequistas, essas pessoas que nos educam na religião (seja ela qual for), na preparação para a minha primeira comunhão me alertou: “devemos amar todo o mundo, mas lembre-se que é mais fácil amar os chineses que você não conhece do que o seu colega ao lado. Procure amar o seu colega e, quando encontrar um chinês de verdade, continue amando a ele”. Pois bem, muitas das informações agora nos chegam pelo Facebook, essa comunidade que nos envolve e nos faz amigos de pessoas distantes (algumas parecem estar tão próximas!) e, até mesmo algumas que encontramos nos corredores da vida cotidiana, da vida física, mas que pouco sabemos delas. O Facebook nos faz querer bem a elas, mas podem nos mostrar que elas são as mais difíceis de serem amadas, porque agora estão duplamente próximas, sendo que, na distância que a comunidade virtual permite, elas expressam mais naturalmente o que tenderiam a dissimular nos encontros imediatos, aqueles que Spielberg chamou de “Terceiro grau”. O criminoso desastre de Brumadinho (a cada hora sabemos mais que foi criminoso) gerou situações que expuseram o pensamento insuspeito de amigos.

Todos os atos são simbólicos e dizem o que desejam e o que se deseja ver neles. Quando o Estado de Israel prontificou-se em enviar uma turma com equipamentos capazes de rastrear pessoas vivas, ocultadas em escombros, um político logo disse que seria uma parada para Israel invadir a Venezuela. Li que muitos dos meus amigos do Facebook acolheram essa bobagem como verdade. Em seguida li que vieram para pesquisar e explorar certo tipo específico de minério, que era mais uma ação de um país imperialista. E li outras sandices semelhantes que eram aplaudidas por amigos daqueles que postavam, sendo que alguns também são meus amigos. E a eles pouco interessava o fato de que Israel foi o único Estado que enviou uma força tarefa para auxiliar os moradores de Brumadinho a encontrar seus parentes, caso eles ainda estivessem vivos. Claro que chegou um momento que tais equipamentos não mais teriam utilidade e a força tarefa retornou. Os comentários de meus amigos lembravam as conversas ocorridas na Alemanha, em 1933, quando começou o boicote às lojas dos comerciantes judeus. Foi o primeiro passo. Os passos seguintes, os professores de história que publicaram e aplaudiram (curtiram) essas insinuações maldosas no Facebook sabem e ensinam aos seus alunos. Contudo, o que ensinam parece seguir uma irônica definição de aula: aula é um processo pelo qual o apontamento que estava no caderno do professor passa para o quadro e, em uma seguida para o caderno do aluno sem passar pela cabeça de nenhum dos dois. É dessa forma que a escola forma ignorantes.

Um dos ensinamentos colhidos por conta do desastre criminoso de Brumadinho é que o Facebook revelou a face nazista de alguns amigos. E, devo seguir o ensinamento de minha catequista, se desejo ajudar a superar o mal que nos circunda.

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