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Educação sexual – nas escolas e nas famílias

Sempre está em debate se a escola deve auxiliar a educação sexual dos jovens. A Base Nacional Comum Curricular, de 2017 diz que sim, e devemos fazer isto. São muitos os motivos para tal. Um deles é que a maior parte dos pais pouco entende o que ocorre no seu corpo e pouco sabem como dizer a seus filhos o que ocorre no interior dos seus corpos, além de terem dificuldades em conversar sobre as questões que afligem os sentimentos das meninas, dos meninos, dos rapazes, das moças, nas diversas etapas da vida. É lamentável dizer, mas, nesse caso, a maioria dos brasileiros e brasileiras, crescem como batatas. A natureza cuida das batatas e a natureza social cuida dos meninos, das meninas, das moças e dos rapazes. Um dos problemas é que os professores, em sua maioria, também cresceram assim. Também os advogados, os padres, as freiras, os pastores, as delegadas, os delegados, os médicos, os enfermeiros, as atendentes dos postos de saúde, os motoristas de ônibus e todos de todas as profissões, inclusive os deputados, os juízes e senadores, escritores e produtores de novelas e filmes. E claro, os educadores. Creio que reconhecer tal situação é o caminho para começar a resolver tal questão.

Outro dia, li em uma rede social, uma jovem professora defendendo que a educação sexual deve chegar às escolas quando houver gente preparada para tal tarefa. Se for assim, vai demorar muito, pois a maioria das pessoas casam-se sem saber muito bem o que acontece depois do feliz intercâmbio amoroso. Temos que aprender fazer isso enquanto fazemos. Os professores são parte dessa grande massa que desconhece e pouco reflete sobre o assunto, não podemos ficar eternamente esperando Godot.

Uma das minhas primeiras experiência como professor, ocorrida ainda em 1970, foi em um colégio católico que ainda hoje atende parte da elite daquela cidade. Fui chamado a ser professor de Religião, após o fracasso de três padres (um deles era diretor) nessa tarefa, em turmas da quinta e sexta séries. Era a primeira vez que, naquele colégio, formava-se turmas mistas. Eram cinco meninas e vinte e cinco meninos. A recepção dos alunos não foi das melhores e, durante duas semanas fui vaiado ao tentar fazer a chamada. O diretor de disciplina reclamava, mas eu era a última esperança deles, parece. Finalmente, quando consegui terminar a chamada, perguntei o que desejavam estudar, o que eles desejariam aprender, eles gritaram uníssonos: SEXO. Logo pedi que eles escrevessem perguntas para serem respondidas, debatidas nas aulas. Assim fomos conversando sobre os assuntos que eles desejavam, as questões de suas vidas naquele momento. Não foi fácil. Na primeira reunião de pais e mestres, fui acusado de estar “ensinando safadeza” a filhos de advogados, professoras, médicos e outros assemelhados. Eles não tinham intimidade com os filhos para conversar sobre os temas que eram a angústia deles. Continuo achando que eles não sabiam do que se tratava. Foi difícil, mas terminamos o ano e vários problemas foram resolvidos por conta de nossas conversas. Aprendi que deveria estudar o assunto que era interesse dos meus alunos. Meus pais não haviam me dado orientação nesse afair, não sabiam; também as escolas que frequentei nada me ofereceram nessa parte de minha formação, pois esse era um tema proibido em todos os espaços sociais, exceto nos espaços escondidos e proibidos, onde os que nada sabiam iam falando e se auto-formando. Os professores temos que aprender ensinando e ensinar aprendendo. Não carece ter medo dessa conversa por questões religiosas, pois a religião é o cuidado da alma e do corpo, pois o ser humano é assim, corpo e alma, dizem os religiosos.

Há que se superar o século XIX, vitoriano, e o século XX no que ele manteve do século anterior. Uma vez um religioso contou-me a seguinte imagem: “a mulher é a fonte da vida, a água límpida e pura; o homem é o barro forte que constrói e mantém a firmeza; são belos até que se tocam, pois então surge a lama.” São pensamentos como esses que tornam desgraçada a existência de milhares de homens e mulheres, vindos de sociedades montadas pelo medo, o medo de viver, de achar bonito o encontro de homens e mulheres, o encontro dos sexos de maneira consciente e responsável.

Vez por outra encontro aqueles meus alunos, com os quais pude conversar sem medo sobre as suas vidas, e eles estão felizes e deles recebo carinho e respeito. Mas isso é apenas resultado de tê-los tratados como seres que precisavam de conhecimento, de compreensão, pois o conhecimento sem a compreensão gera monstros, como os descritos em tantas novelas do século XIX e vividos nas guerras do século XX que nos chegam ainda hoje, pois, como dizia um certo alemão “ainda estamos no alvorecer da humanidade”, ainda não nos conhecemos, não nos amamos, somos estranhos em nossos corpos. E é isso, lamentavelmente, que contemplamos nas religiões, – sacras ou civis – com padres, freiras, pastoras, pastores, babalorixás, yaralorixás, monges, xamãs, pais de santos e outros que utilizam a religião para escravizar, quando deviam auxiliar a trilhar na direção da felicidade.

Somos chamados a superar os medos, e apontar para os futuros pais como auxiliar seus filhos a viver com alegria a totalidade de suas vidas.

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