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Promessas e expectativas no primeiro dia de uma nova tentativa republicana

Parte dos anos que vivi está ligada à assessoria à Igreja Católica, com um hiato na formação de padres. Aprendi muito naquele período pois, embora leigo, estive na borda do mundo clerical. Somos muitos com essa experiência de fronteira. Hoje, dia em que Jair Bolsonaro toma posse, vem-me à memória alguns comentários que ouvi de Dom Augusto Carvalho, bispo de Caruaru, cidade do Agreste de Pernambuco. Nascido no ao de 1917, no município de Floresta, Sertão pernambucano, Dom Augusto vivia com simplicidade, cuidava da educação; comprou o Colégio Caruaru e o tornou colégio diocesano, fundou a Faculdade de Filosofia de Caruaru. É apontado como o bispo que mais ordenou padres no Nordeste. Recordo que, em uma de nossas conversas sobre seus seminaristas, disse com um riso sério a um deles, que veio a ser ordenado: quando nós perguntamos se vocês prometem que vão ser obedientes a quem os ordena e aos sucessores, sempre dizem que sim, mas, com o tempo. alguns esquecem que prometeram.

Desde que nasci o Brasil foi governado por duas dezenas de presidentes, entre os provisórios, os ditadores, além de uma Trinca que, segundo Carlos Imperial, se revezava até à posse do general Médici. Todos eles seguiram o ritual de jurar respeitar e fazer cumprir a Constituição. Alguns tentaram golpes (Carlos Luz, Jânio Quadros); Raniere Mazilli bisou a presidência sem ter sido eleito, pois a assumiu antes da posse de João Goulart e depois de sua deposição; todos os generais ditadores, que se autodenominaram presidentes, juraram ser fiéis à Constituição enquanto namoravam com Atos Institucionais, nos fazendo lembrar famosa canção do Rei do Brega, Reginaldo Rossi, em que mencionava uma noiva que “vai trair o marido em plena Lua de Mel”. José Sarney, como Castelo Branco, assumiu o cargo com uma Constituição,mas com o compromisso de promover a feitura de outra, e quando foi jurar que iria respeitá-la, sua mão tremia, e era um tempo em que era bem mais saudável. Seu sucessor, Collor de Mello, estuprou a Constituição, realizando o que dizia que seu oponente faria: tomou a poupança da população fazendo o oposto do juramento. Itamar Franco acordou com seu Ministro da Fazenda, Fernando Henrique Cardoso, promover algumas modificações na Constituição de 1988 (longa e ainda não regulamentada) com o objetivo de diminuir o Estado para fazer crescer a sociedade, como se dizia então. Desde o fim da Ditadura que assistimos a utilização das Medidas Provisórias, muito além do que é permitida pela Constituição. Normas constitucionais parece que foram criadas para favorecer alguns grupos e, tendo sido assim, aqueles que auxiliaram fazer a Constituição, mas que só a assinaram por exigência protocolar (não assinaram por convicção) não titubearam em promover pequenas alterações para implementar programas que não havia´m sido debatido por toda a sociedade. O caso da manutenção dos direitos políticos de um presidente afastado legalmente é emblemático. Assim vem sendo a prática: promete-se para não cumprir, como dizia o bispo de Caruaru.

Assistimos hoje mais uma posse, mais juramentos, mais explosão de esperanças por uma parte da população, enquanto outras estão desejosas do fracasso da administração que hoje começa e, um terceiro grupo cultiva expectativas que sempre chegam acompanhadas de desconfianças. Sou desses últimos que não conseguem ver militares (grupo treinado para mandar e cumprir ordens), tipo especial de clero, de gente separada para ser protetora de um povo, mas que não vive a vida do povo que diz proteger. Vivi o tempo de sua dominação, dos seus “presidentes”, mas também conheci e sofri a ação de outros “cleros” menores, mas parte daquilo que um marxista chamava de Aparelhos Ideológicos do Estado. O clero quase sempre se transforma em uma Nomenklatura. Por isso sempre estaremos atentos aos que escolhemos para jurarem que vão nos defender. Quase sempre querem nos controlar.

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