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E eis que chega João

João Vicente da Silva teria este ano 105 anos, viveu 83 anos, assistiu muitas mudanças sociais, políticas, econômicas, sofreu todas elas; não foi protagonista da história dos historiadores e, como muitos, foi protagonista de muitas pequenas histórias, dessas que só existirão enquanto houver alguém que lembre a lembrança do que alguns mencionaram. Vez por outra tento refazer alguns trajetos que “Seu João Careca” protagonizou, alguns eu vi, mas preciso de algum testemunho que confirme, mas as testemunhas também já se foram. A memória não é suficiente para vencer o tempo quando ela não é coletiva, compartilhada por muitos, e então ela precisa ter algum documento que a acompanhe, que comprove a sua existência. Chegará um tempo em que “Seu João da Venda” deixará de existir, e será quando quem dele se lembra tornar-se também alguém que “se tivesse vivo faria x anos”.

Este tempo de fim de ano é sempre um tempo de visitar outros tempos, tornar presente alguns passados. O Menino Jesus nasce todos os anos na festa que a ele dedicamos no dia que definimos que é o de seu nascimento. É assim que o Menino Jesus nunca morre. Ele sobreviveu ao medo de Herodes, um medo tão grande que ele mandou matou matar as crianças com menos de dois anos para que o Menino Jesus não fosse morto. O medo de Herodes foi perceber que deixaria de ser rei, ela sabia que nada fez para merecer ser rei, apenas curvou-se aos poderosos, não era rei, era um escravo. Herodes entrou nesta história por ter-se encontrado com um Rei, ainda menino. Mais tarde, quando já for adulto, o menino dirá que é necessário ser sempre como uma criança, e uma criança quer apenas ser feliz, ouvir música, correr até cansar ou simplesmente ficar olhando para aprender o que tiver que ser aprendido. O Menino Jesus nasceu para ser rei, cuidar das pessoas, como fazem os verdadeiros reis. E João Vicente da Silva cuidou de muitas pessoas os 83 anos que viveu e sua memória será guardada junto da memória de Maria Ferreira, que também, como o Menino Jesus, protegeu seu povo das maldades dos Herodes sedutores. Ah! sim, Herodes procurou seduzir os que procuravam o Menino Jesus, usou palavras e demonstração de poder com o objetivo de saber onde estava o Menino, não para cuidar dele, mas para mata-lo. Os falsos reis sempre estão a matar aqueles que os seguem, encantados por seus gestos largos e bolsa ‘generosa’ para com os que os bajulam. Os que estão à procura do Menino Jesus sabem que ele não encanta pela riqueza que os poderes oferecem, mas pela simplicidade. Os que encontram e seguem o Menino Jesus vivem com simplicidade. A simplicidade foi o que João e Maria viveram, nos diferentes séculos que foi o século XX, a simplicidade da manjedoura.

São muitas as maneiras de preservar a memória, continuar uma história. Dizem que, para continuar a vida, preservar a memória, ser parte da história, se deve plantar árvores, dizem alguns, e João e Maria plantaram; outros dizem que é necessário escrever um livro, João e Maria não escreveram nenhum livro (possivelmente leram a Carta de ABC e algumas lições de algum livro); e terceiros entendem que se deve fazer e criar filhos, fizeram onze, mas só puderam criar sete. Entre os netos de João há Tâmisa, que recebeu este nome pois que ela nasceu no ano em que o famoso rio londrino voltou a ser fonte de vida, agora casada com Rafael, e após nos terem dado a graça de Carolina, neste final de ano, João e Maria terão mais um bisneto, já nomeado João. Isso significa que João vai ter sua história ampliada, sua memória será ainda mais alargada.

João Vicente da Silva, meu pai, tinha um carinho especial por João Batista, o que a tradição diz ser primo do Menino Jesus, quem primeiro reconheceu a realeza de Jesus. A tradição nos conta que João Batista enfrentou outro Herodes, e este para agradar sua enteada mandou matar a João para afirmar-se como rei, quando era apenas escravo de suas paixões.

João, o primo de Jesus, também tem uma história interessante em torno do seu nascimento. Conta-se que, quando sua mãe Izabel contou a Zacarias, seu pai, que estava grávida, ele riu, zombou desse anúncio pois ele já estava, como ela, envelhecido. Por ter duvidado, ele ficou mudo e só voltou a falar quando, ao ser perguntado qual o nome que daria seu filho recém-nascido, escreveu que seria João. Então é que se pode entender como é belo ser João. A palavra João carrega vários significados: pode ser entendida como “Deus é cheio de graça”, mas também pode ser lido como “agraciado por Deus” ou também ser “a graça e a misericórdia de Deus”. E ainda tão belo quanto os entendimentos anteriores, João lembra que “Deus perdoa”.

Que bom ter um pai e um neto com um nome tão maravilhoso.

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