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Avaliação em final de semestre

Estou triste neste fim de tarde, apesar do dia produtivo e alegre com meu trabalho e família. Mas como imaginar o país melhor com a capacidade de nossos principais juízes demonstrarem tanto sabe e pouco cuidado com o povo que lhes pagou a educação e, recentemente vinha sendo achincalhado por pagar auxílio moradia de seis salários mínimos a quem já recebe trinta salários mínimos. Fico triste por ser impotente diante do cinismo do ministro que, durante dois anos fingiu que não tinha tempo para rever tão estúpido “direito”, mas que prontamente definiu que era errado receber tal prebenda, após o presidente da República ceder (de bom grado, parece) à chantagem e lhes conceder um aumento um aumento maior que o ‘benefício’ que lhe foi tirado. Cinismo maior ao pedir vista a um processo para dar a impressão de que está ao lado da população e não contra os que fraudaram contas públicas, desviaram dinheiro público, sabendo que nada vai mudar o que pensam seus colegas, que é o mesmo que ele pensa. Não creio que pretenda punir bandidos, quem faz chantagem com interesses da população.

A tristeza só faz aumentar ao saber que auxiliar da Procuradora Geral da República pediu para deixar o cargo pois perdeu o “auxílio moradia”, embora venha a ser beneficiado com um aumento em seu salário, na cascata que beneficia a todos os promotores. Ah! Esses promotores deveriam promover ações em defesa do direito comum! E poderia continuar o tom de lamento, continuar dessa maneira me levaria desistir dos meus sonhos, aqueles que foram sendo desvelados à medida que conhecia pessoas, que lia livros, que os debatia, que construía a vida como profissional. Todas essas ações estavam, ainda estão, envoltas nesse desejo da humanidade.

Este ano que termina completa 70 anos da proclamação que reconhece a todos os homens direitos inalienáveis, direitos que não lhes podem ser retirados, pois se assim se fizer, deixa-se de reconhecer a sua humanidade, mas, principalmente assume-se assumir a negação da humanidade. Até pormos em papel a relação de Direitos muita água e muito sangue correram. Sabemos que historicamente eles foram construídos com muito sangue derramado, sangue tomado dos que se opunham à modificações que beneficiassem a todos, mas também sangue que, por maldades, alguns líderes fizeram derramar para seu prazer, enquanto mentiam que o faziam em benefício da humanidade. Foi fácil para gente doente usar o desejo de liberdade para destruir possibilidades de liberdade; foi fácil para gente doente, utilizar a ânsia de felicidade que todos os humanos carregamos, no intuito de cultivar a sua maldade, seu desejo de poder. E, como essas pessoas receberam apoio de tantos, doentes e sadios, para a realização de seus projetos de poder! Talvez essa seja a razão da melancolia que trago e que vejo e sinto em tantos colegas de geração. Talvez nós sintamos que fomos utilizados por alguns, e nos deixamos enganar. Mas esse talvez seja um risco que todas as gerações correm na caminhada humana para construir um mundo mais feliz.

Terminei uma das minhas aulas esta semana alegre e perplexo com alguns desses jovens que acompanhei neste semestre. Alegre porque os vi com desejos de mudar o mundo, de fazê-lo mais justo, mas perplexos pois não vi o mesmo entusiasmo em fazê-lo mais feliz. Foi bem mais fácil para eles expressarem o que entendiam por “justiça” que explicitar alguma ideia do que viesse a ser felicidade, para si e para outrem. Até se dispunham a matar e morrer para que a justiça viesse a ser realizada (o Período do Terror não os amedronta), mas foram reticente em saber dizer se eram ou não felizes. Talvez, no nosso ensino da história, sejam mais alimentador dos desejos do heroísmo sangrento e explicito que das vitórias mais fugazes que fazem parte do cotidiano.

Refletindo sobre eventos ocorridos nos séculos XVII e XVIII, esses jovens puderam debater e solidarizar-se com os esforços que pareciam encaminhar para a construção de uma “sociedade justa”, mas não perceberam que havia, também a busca da felicidade e, penso, parece que esta perspectiva é a mesma na qual estão traçando a sua caminhada: a luta pela justiça e, secundariamente, alguma felicidade. Mas, como é “difícil definir o que seja felicidade”, deixa-se essa reflexão para depois. Mas felicidade é algo excessivamente indefinido, algo que nem mesmo os dicionaristas são capazes de afirmar. E, contudo, “todos os homens têm direito à felicidade”.

Um dos livros que mais chamou a sua atenção neste semestre, dizem os seus comentários, não que os explicitassem, foi sobre o Medo, de Dulemeau, não lhes chamou atenção seu livro sobre a busca da felicidade. Talvez mais tarde, quando a justiça houver vencido o medo, haja tempo para esta reflexão.

Os juízes estão mais preocupados em serem justos, defendem como direito de justiça os seus privilégios que eles chamam de direitos, que com o cotidiano do homem comum, como o seu direito a ser feliz, comendo algum pedaço de alimento mais forte que as pipocas vendidas e consumidas nos transportes coletivos usados pelos mais pobres, e os semáforos, para alguns que acumularam algo.

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