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Recife e os muros da democracia

Estou fazendo a leitura do livro GRITAM OS MUROS, pichações e ditadura civil-militar no Brasil, escrito por Thiago Nunes Soares e publicado pela Appris editora, da cidade de Curitiba, no Paraná. Produção recente, faz o resgate de uma das muitas maneiras que a sociedade utilizou para a contestação das ações dos que se apoderaram do Estado brasileiro em 1964 e, aliados às forças armadas, impuseram uma ditadura que agora querem negar. Assim, chegou em boa hora o trabalho deste jovem historiador que cumpre a tarefa de lembrar o que todos esquecem, os tempos ruins que foram vividos, tempos que ficaram famosos como de chumbo. O chumbo das balas que mataram alguns e assustaram a muitos. Entretanto, no escuro das noites ou no clarão do dia, os muros da cidade do Recife tornaram-se espaço da liberdade de expressão que os ditadores não permitiam.

Os muros sempre separam, é o comum dizer, enquanto as pontes unem. Catava-se assim “quando o muro separa uma ponte une” e, no Recife os muros eram a ponte que forçava o diálogo. Silenciosos eles recebiam as mensagens e, os tijolos tornavam bocas dos desejos, das denúncias, da coragem que vencia o medo.
Carregado de documentos e depoimentos, Thiago Soares nos auxilia a lembrar como a sociedade venceu a ditadura. O regime imposto por alguns setores da sociedade, o tempo de chumbo foi vencido principalmente pela palavra e pela ação contínua da prática solidária de denunciar os abusos e dividir as informações nas assembleias públicas que, embora todos soubessem que estavam vigiadas, sendo fotografadas e gravadas, eram realizadas ao arrepio dos ditadores. Este livro narra a fala silenciosa dos muros, dos sussurros criadores da liberdade, das redes de solidariedades armadas por anônimos e valentes cidadãos, animando a todos e apontando que o chumbo das balas prometidas podia ser derretida pelo calor da ação pacífica e eficaz, solidária com os que foram aprisionados por razões diversas, sendo todas resumidas como ânsia de liberdade. Assim os muros da cidade tornavam-se força corrosiva, destruidora da ordem que desordenara a vida social desde 1964.

Toda análise histórica escolhe, define o tempo objeto de estudo, e Thiago Soares escolheu o final da década de 1970, quando a ditadura já não mais conseguia impor universalmente o medo que o chumbo das balas impõe. Muitos cidadãos, nos anos anteriores já haviam sido sequestrados, torturados, algumas centenas foram mortos e muitos desaparecidos até hoje. É o que nos mostram os relatos e os documentos trazidos por Thiago. O livro Tortura Nunca mais, mostra o que e como a ditadura tentou destruir os anseios de liberdade; os relatos do que ocorreu entre 1970 e 1985, indicam a continuidade de ação social, da capacidade dos cidadãos se organizarem e criar uma nova realidade, utilizando as contradições dos sistemas de poder, das conjunturas nacionais e internacionais e, então ampliar os espaços da liberdade, a construção dos direitos civis, políticos e sociais, como bem nos diz o autor logo nas páginas iniciais do seu livro. A derrubada dos muros impostos pela ditadura civil-militar são explodidos pela construção diária dos direitos dos cidadãos, aqueles que foram negados e são recriados pela sociedade.

Hodiernamente alguns querem negar a existência da ditadura que sofremos entre 1964 e 1985; vivemos um jogo pelo domínio da memória e da história do povo brasileiro e cabe aos historiadores organizar as informações de modo a auxiliar a preservação da memória dos construtores da cidade livre. O trabalho de Thiago Soares dá continuidade ao que foi realizado por outros historiadores, como ele bem ressalta na relação de trabalhos ele consultou, aqueles que, mais velhos ou de sua geração, já contribuíram para que esse passado não seja esquecido para que não seja revivido. Essa é uma das importância dos historiadores, eles são o vínculo com o passado, o vivido e o já refletido e sistematizado. O historiador que não cita o trabalho de seus colegas, não torna conhecido o esforço de outros historiadores está negando a sua missão ao mesmo tempo que a realiza. Importante que o leitor visite a bibliografia utilizada pelo historiador e verifique que há uma continuidade desse constante refazer, reler e manter a história de um povo. Ler a bibliografia de um livro de história é fazer um pequeno curso de historiografia, de dar passos na direção de compreender que o ofício de historiador não é apenas a visita aos arquivos, não é um trabalho isolado, embora seja escrito no solitário espaço silencioso de uma sala para que se possa conversar com os muitos historiadores que já refletiram sobre a humanidade. Claro que nem todos os que pensaram e escreveram sobre o tema abordado foram lidos, pois esta é uma tarefa impossível, mas o contato com a bibliografia nos mostra que o autor conversou com os demais membros dessa comunidade que chamamos de historiadores, esses que procuram entender como são construídas as ruas – físicas e mentais – da cidade.

Mas o povo vive em ruas, bairros que formam uma cidade e, o que nos traz o trabalho de Thiago é disposição dos cidadãos da cidade do Recife em lutar para criar e manter a sua liberdade, fazendo dos muros pontes.

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