Arquivos

Arquivos: via de garantia do passado do presente e do futuro

O Colecionador de Ossos é um belo filme policial, de suspense, estrelado por Denzel Washington, lançado no Brasil em janeiro de 2000, nos apresenta um policial atarefado em descobrir um assassino em série, que tem como tema/motivação uma série de assassinatos ocorridos em Nova York no final do século XIX. Além da bela interpretação do D. Washington e Angelina Jolie, o filme marcou-me por mostrar como os arquivos da cidade de Nova York estão organizados, bem como suas bibliotecas. Os acervos dessas duas instituições são a maior joia, em minha opinião, da sociedade americana. Elas guardam as histórias que formam a história da cidade, das cidades, podemos dizer, pois o cuidado com a guarda da documentação é enorme naquela sociedade. A sociedade pode ter acesso à sua história porque os arquivos existem, funcionam, guardam os documentos de interesse de todos. O mesmo se diga das bibliotecas, sempre postas à disposição de todos e, existentes nos bairros e subúrbios. E, embora atualizadas em livros, não jogam fora o que já foi lido por gerações anteriores. É assim que se pode saber como se formou o pensamento da sociedade, pois levantando os livros lidos por cada geração, é que fazemos a sua genealogia intelectual. No filme que citei acima, ou em vários outros, nas séries recentemente mais vistas, sempre vemos pessoas recorrendo a arquivos, visitando bibliotecas, lém dos bares e ruas e bordéis, pois assim também são as cidades. Foi buscando informações nos arquivos da cidade, verificando as plantas das cidades de cem anos passados, buscando livros publicados no início do século, que a trama policial foi resolvida.

E o que isso tem com a nossa vida, nos que gostamos tanto de Cocacola e, nossa “elite” sonha com Disneylândia? Nós não temos um arquivo sério, praticamente em nenhum estado brasileiro. O de Pernambuco, uma parte está espremida em um edifício sem espaço para a realização da tarefa de um arquivo público, e outra está em prédio úmido, em região de enchentes, sem condicionadores de ar que mantenham os documentos a salvo. Sempre que chove, as duas dezenas (talvez três) de funcionários têm pesadelos, pensando em como poderão encontrar documentos de duzentos anos. E a capital do Estado, Recife, será que tem arquivo? E as cidades mantêm arquivo? Existe uma política de arquivos para preservar documentos e garantir os direitos dos cidadãos? O Arquivo Público existe para além de uma subdiretoria em algum Órgão governamental? O do Estado de Pernambuco vive uma vida de sem teto: uma administração diz que deve estar na Secretaria de Justiça, a seguinte acha melhor na Educação, mas vem uma terceira e informa que é melhor que fique ligada diretamente ao governador e mais uma pode chegar e dizer que é melhor que o arquivo seja de responsabilidade do secretário de turismo. De qualquer maneira, muito raramente um arquivista é convidado para cuidar do arquivo, quase sempre usado como solução para colocar algum amigo do governador ou de algum político que não sabe bem o que “fundo”.

O que se tornou público em São Paulo, nesta semana com umviaduto é significativo: os arquivos da prefeitura não possuem cópia do projeto do viaduto danificado, uma construção de cinquenta anos!!! Procura-se a viúva do arquiteto, será que ela tem? Mas ela se desfez da biblioteca do marido (os maiores inimigos dos livros são as traças e os herdeiros). Quem sabe a construtora? Ah! Houve um incêndio… Procura-se alguém que trabalhou na construção do viaduto, um aposentado que guarde na memória qual foi a dosagem de cimento utilizado, etc. etc. etc. e como seria em Carpina? Em Campinas? Em Petrolina? Em Fortaleza?
Tudo isso mostra que vereadores, deputados, prefeitos, governadores, e outros agentes do Estado que deveriam cuidar e zelar pela coisa pública, estão mais preocupados com o seu salário pessoal, se podem usar carro oficial, se tem verba para comprar o paletó, se se pode contratar os cabos eleitorais para ficar no seu gabinete para que possam ter a sensação de poder.

Sem cuidar de guardar a nossa memória, a memória de nossos atos, de nossos sonhos que se tornaram edifícios, ruas, facilmente nós seremos engolidos pelo tempo. Os poderosos de nossa sociedade guardam o que lhes interessa, não investem na guarda da história do povo brasileiro. Preferem comprar carros novos para passeio dos juízes e defensores públicos que investir na construção de bibliotecas e em uma política de manutenção desses bens culturais comuns. Precisamos cuidar desses equipamentos em nossas escolas, em nossos bairros, em nossas cidades. Todos nós somos a memória da cidade. Apenas os criminosos não querem guardar documentos, eles provam os seus crimes. E como não cuidam dos documentos, sempre que estão encrencados perguntam: você tem algum documento que prove? Sem documentos não há crime. Por isso eles seguem impunes, evitando que construamos nossa história emquanto eles nos impõem uma narrativa a cada governo.

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