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O fim de uma guerra em 1917

Quando paramos para comemorar cem anos do final da Primeira Guerra Mundial do século XX, notamos que pouco lembramos dessa guerra distante no tempo, mas que marcou o início do século XX, segundo famosos historiador britânico. Mais voltado para a América latina, o francês Olivier Campagnon entende que aquela guerra encaminhou o Brasil para definir sua identidade, mais voltada para os Estados Unidos, especialmente a Europa germânica e britânica. Aos poucos foi também afastando-se, culturalmente da França. A guerra que terminou a 11 de novembro de 1919 foi, segundo alguns continuada em silêncio durante algum tempo e, depois de 1939, ao som dos tanques e bombardeios aéreos sobre cidades inglesas, principalmente.

Para alcançar meu mestrado em história pesquisei como as lideranças da Arquidiocese de Olinda e Recife usaram as informações sobre a guerra de 1914, no jornal A Tribuna, para angariar a simpatia dos governantes e animar os católicos na direção do patriotismo. Verifiquei duas tendências entre os católicos de Olinda e Recife: uma delas, era verbalizada pelo Monsenhor Afonso Pequeno que entendia não ser do interesse do Brasil envolver-se em uma guerra que favoreceria aos Estados Unidos, recentemente entrado no conflito, após período de indecisão de Wilson. Era dos Estados Unidos de onde estavam vindo, em profusão, o protestantismo e o bicudo, “duas pragas”, dizia ele, que estavam arruinando a identidade brasileira e o algodão que era uma das forças da economia pernambucana naquele momento. Para o Monsenhor Afonso Pequeno o Brasil deveria permanecer neutro, seguindo a orientação do papa Bento XV. Outra tendência era a orientada pelo superior do Monsenhor, Dom Sebastião Leme, arcebispo que se esmerava na política de fortalecer as relações entre a Igreja e o Estado, pois entendia que o catolicismo era a argamassa que fez e une o Brasil, como escrevera em sua Carta de Saudação aos seus novos diocesanos, em 1916. As ele, durante o seu pastoreio em Olinda e Recife, fez presidente estadual da Comissão de Civismo e foi defensor do serviço militar obrigatório, auxiliando a cruzada do poeta Olavo Bilac. Dom Leme não seguia a orientação do Santo Padre, assim como fez o arcebispo de Paris que, em sermão na Notre Dame, disse que não poderia calar o seu sentimento de amor à pátria quando ela estava sendo agredida. O Brasil sentiu pouco essa agressão, tendo alguns navios mercantes, que se dirigiam à Europa, atacados por submarinos, o que favoreceu o intercâmbio comercial com os Estados Unidos, seu futuro principal parceiro comercial. Alguns soldados foram enviados, mas não travaram nenhum combate, tendo chegado à Europa no dia 10 de novembro. Mas as simpatias dos intelectuais foram sempre para os franceses, especialmente, sempre vistos como paladinos da civilização.

Após a declaração de guerra aos Países Centrais – Alemanha, Áustria, Hungria – ocorreram depredações de prédios com estabelecimentos comerciais de alemães, e também conventos que eram habitados por padres de origem alemã, sob a suspeita de estarem à serviço daquelas potências bárbaras que combatiam a civilização, ou seja, a França. Isso aconteceu em outras cidades, mas na região de imigração alemã, viu-se alguns milhares voluntariando-se para combater na defesa do Kaiser Guilherme II.

O término dessa guerra trouxe um surto de nacionalismo. Três depois vieram as festas comemorativas do Centenário da Independência, A Semana de Arte Moderna, e outros movimentos que buscavam uma identidade brasileira. Daí resultaram o Integralismo de Plínio Salgado, mas principalmente o fim da democracia nascida dom movimento de 1930, com a adoção do Estado Novo.

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SILVA, Severino Vicente da. Da Guerra à neocristandade – A Tribuna Religiosa, 1917-1919. Curitiba: Editora Prismas, 2015.

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