Arquivos

É uma sucessão presidencial, não uma guerra civil.

Em meados do século XVII ocorreu, na Inglaterra uma Guerra Civil; nos Estados Unidos da América do Norte uma guerra civil ocorreu uma Guerra Civil na segunda metade do século XIX. Guerras civis ocorrem no solo de uma pátria comum e, quando elas findam, ocorre o esforço dos antigos combatentes em superar as diferenças, celebrarem a paz e criar um mundo novo no qual todos se situem confortavelmente. A primeira das guerras citadas ocorreu em uma monarquia absoluta, a qual não permitia a livre manifestação das massas; o rei achava que democracia era uma piada dos gregos. Alguns anos após a guerra os britânicos começaram a experimentar a democracia, gostaram e convivem com as diferenças até hoje, em uma sucessão de governos formados por partidos que se opõem, mas não se veem como inimigos. Semelhantemente ocorre nos Estados Unidos da América, embora lá a guerra civil ocorreu já em um Estado democrático. Terminada a guerra, vem ocorrendo o esforço de o conviver com a diferença de opiniões e partidos se alternam na administração do Estado. São oponentes, não inimigos.

No Brasil, cuja história nunca deixou de registrar revoltas e levantes que levaram à morte muitos de seus habitantes, não ocorreu guerra civil. Fizemos guerras contra o colonizador para nos organizar como país e nação livre (infelizmente historiadores a serviços dos políticos esquecem de ressaltar a bravura do povo brasileiros, preferindo ressaltar os acordos oligárquicos que sempre ocorreram após essas revoltas), saímos da Monarquia para a República sem guerra civil e, embora tenhamos diferenças profundas e ainda não enfrentadas com realismo e pertinácia, não chegamos a guerra civil. Não nos tratamos como inimigos.
Talvez por isso causa espanto que, após uma eleição legal, sem fraudes, acompanhada por representantes de vários organismo internacionais, o candidato derrotado conclame seus eleitores, não a exercer a oposição necessária em estados livre e democráticos, mas os conclame para a resistência, como se estivéssemos saindo de uma guerra contra uma potência estrangeira, como fizeram os pernambucanos entre 1645 a 1654, contra os exércitos da Holanda. Talvez tenha sido por conta deste entendimento tosco, que antes da fala do candidato que recebeu mais de 45 mil votos de brasileiros, enquanto o seu concorrente recebeu 55 mil votos, tenha pedido “um minuto de silêncio”, desses que se pede para homenagear algum soldado morto. Comportamentos como esse, é que levaram seu partido à derrota, após ter vencido quatro eleições consecutivas. Tivesse esse candidato um pouco de noção da dialética, saberia que as contradições internas dos governos que antecederam esse momento democrático é que levaram a sociedade pedir uma alternância necessária e benéfica à vida democrática.

Perder uma eleição é normal na vida das democracias, mas impensável para os que criam espaços para estados totalitários. Nosso processo civilizador tem sido incompleto, mas bem que podemos completa-lo, aperfeiçoá-lo sem criarmos ambiente para uma guerra civil.

Curta e compartilhe:

Comments are closed.