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Fé e políticos salvadores

Dois dias após os festejos em honra da Padroeira do Brasil, com multidões caminhando até o seu santuário em Aparecida, louvando e agradecendo todas as graças com as quais ela protege e mantém o Brasil funcionando de maneira eficaz e bonita, na forma que nós deixamos. Nos dois dias seguintes, devotos da Mãe de Jesus seguem, em procissão, em homenagem à Mãe de Jesus várias ruas e rios são o palco da exposição da fé no Belém do Pará, agora não a nomeando Aparecida, mas como Nazaré, a lembrar a vila onde teria nascido e conhecido a José, esse sempre esquecido auxiliar dos mistérios que rondam a Mãe de Jesus. Tudo isso acompanhado na televisão, com os olhos dos cinegrafistas. Quantas pessoas? Dois milhões? Essas festas provocaram uma admiração a uma senhora que se diz católica, embora não costume frequentar a igreja, exceto quando é festa de Maria do Carmo, a Maria dos Carmelitas. Dizia ela: “ a gente só vê gente pobre seguindo e fazendo as promessas.” Apenas disse: pois é.

Nas semanas que se seguem será completado o processo eleitoral e os brasileiros definirão quem os vai governar nos próximos quatro anos, quem tomará decisões que definirão o caminho da nação na primeira metade do século XXI. Os candidatos não são de confiança, e dividem a preferência do eleitorado. Acusam-se mutuamente de fascista e comunista. Um deles proclama que Deus está acima de tudo e outro, embora seja de tradição Ortodoxa, foi flagrado em templo católico comungando, com o apoio do vigário, mas sob discordância da comunidade. Era um dia de homenagem à Mãe de Jesus. Mas, como dizem os de fé, ela é Mãe de todos, inclusive daqueles que lhes negam a maternidade divina. Entretanto, será que essa questão auxilia a superar o dilema posto à sociedade brasileira?

No pleito de 2014, a candidata e o líder do Partido dos Trabalhadores afirmaram que fariam o diabo para não perder a eleição. Agora, como no século XVII e Henrique de Navarra, o candidato parece dizer: Brasília vale uma missa. Quando Henrique de Navarra disse tal frase já havia ocorrido a Noite de São Bartolomeu. Tomara que não venha ocorrer a tragédia com essa aproximação desarvergonhada dos políticos na direção das Igrejas. Já pensou se esquenta esse debate “fulano está com o apoio dessa igreja x beltrano está com essa outra igreja”. E lá vamos nós, de novo à luta de classes que foi renomeada no Brasil sob o “nós contra eles”.

Povo religioso, até os ateus vão à missa e pedem que rezem pelos seus doentes, o brasileiro não deixa de fazer suas promessas aos santos preferidos, mas cultiva um messianismo em suas práticas políticas, sempre à espera de um “salvador” da pátria, uma permanente dependência de um rei, um enviado divino. Definitivamente o brasileiro não parece um povo Moderno, não parece ter completado o Processo Civilizador iniciado no século XVI; acomodou-se na epopeia lusídica, tornando-se o Povo Novo, na definição de Darcy Ribeiro, sempre a fazer Atualizações Históricas e, sempre as faz de maneira incompleta, pois lhe falta um dos substratos básicos da modernidade, a racionalidade de ações, do trabalho sistemático e permanente. O povo brasileiro sempre faz uma pausa, seus políticos não apostam na continuidade de projetos e, cada um apresenta-se como o salvador momentoso. Sem planejamento e continuidade administrativa, o povo será sempre presa das mentes que projetam seu futuro e conseguem fazer o povo aceita-lo como seu.

Na eleição de 28 de outubro, dois projetos redentores estão em jogo, dois salvadores da pátria e da democracia (algo que não tem origem nas navegações do século XV) irão, mais uma vez brincar com a fé do povo que vive sob os braços de Redentor, e tem, em suas mais antigas cidades, o Salvador do Mundo como padroeiro.

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