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Em torno do CIEP Mestre Marçal

Esta semana mais um professor foi agredido, melhor dizendo, a agressão a mais um professor chegou aos meios de comunicação, mais especificamente à televisão, o meio de mais fácil acesso. Todos os dias professores são agredidos neste país, carente de muitas reformas, mas que, a cada mudança de ministro, secretário ou diretor de educação, faz uma minirreforma educacional que parece fazer parte daquilo que Darcy Ribeiro chamava de projeto de deseducação do Brasil. No caso do professor Tiago, que exerce a sua profissão em um Centro Integrado de Educação Pública Mestre Marçal no Rio de Janeiro, o que ocorreu e chegou à televisão através de um vídeo feito por um colega dos agressores, foi uma agressão física, pois como ele informou, tem recebido, continuadamente, agressões verbais e morais, salientando que a direção do CIEP sabia do que ocorria e manteve alheia aos acontecimentos. Pelo que disse o professor Tiago, ele não era o único a ser agredido. Todos silenciaram por temor, por medo. Agentes do Estado estão amedrontados, trabalham atemorizados em prédio público, pois o Estado não garante a segurança de seus agentes, dos agentes que levam a saúde, a educação, a civilidade e a cultura nacional e universal àquele ambiente. Medo de que? O Estado está com medo dos donos das favelas, dos morros, das ruas, dos serviços que o Estado deveria cuidar. Os CIEPs foi uma criação do governo de Leonel Brizola que, ao cria-lo, garantiu que a polícia – parte do Estado – não subiria mais o morro. Agora não sobe mais, nem com a ajuda do Exército Nacional, e por isso, o Professor Tiago e centenas de outros que escolheram, ou foram escolhidos pelo Magistério, são agredidos e, só o soubemos, porque um dos seus alunos teria rompido a lei do silêncio imposta aos abandonados pelo Estado. Não fosse o vídeo posta em uma rede social, talvez essa seria mais uma agressão física sofrida por um professor – agente desarmado do Estado, assim como os médicos, enfermeiros, agentes de saúde – jamais seria de conhecimento público.

Estamos na primavera, às vésperas de uma eleição geral, na qual os candidatos pouco debatem sobre o que farão, e seus seguidores mais se agridem que discutem. Falta de prática democrática, próprio de uma população que foi ensinada a só realizar qualquer tarefa se houver a possibilidade de punição. Mentalidade de escravo, de gente que se recusa a assumir o papel de protagonista, porque tem medo: medo de não ser entendido, medo de ser entendido; medo de ser perseguido, medo de não ser perseguido; medo de procurar o futuro, medo que o futuro chegue; medo de conhecer o seu passado, medo que saibam do seu passado; medo de fazer alguma coisa, medo de fazer coisa nenhuma; medo de pensar, medo de ser chamado de bobo; medo de ser chamado de honesto, medo de ser chamado brasileiro, medo de ser chamado comunista, medo de ser chamado fascista, medo de viver pois vive com medo de morrer. Medo porque não sabe e o medo de vir a saber. E o medo faz com que se perca a noção de civilidade, pois o medo faz parte do humano para sua proteção, mas ficar sob o domínio do medo animaliza, produz apenas reações do límbico.
É a ausência da prática democrática, portanto responsável pela vida social, que impele o estudante brasileiro, especialmente os das camadas sociais menos senhoras de seus desejos, só interessar-se pela leitura indicada pelo professor se houver a perspectiva de prova, de reprovação. Acostumado à vara pela desobediência e ao regalo pela obediência, poucos superam essa armadilha e buscam seu próprio caminho. Aprenderam a “estudar para a prova” e, mais lamentável, aprenderam que se alguém lhes disser que não estudaram o suficiente, poderão recorrer à sedução ou à sedição, objetivando criar o medo nos seus professores. Fazem isso pois contam com o silêncio dos diretores, reitores, vereadores, deputados, senadores, prefeitos, governadores, presidentes e outras autoridades, pois como alçaram tais voos em sociedade que vive do medo e da bajulação dos feitores e seus mentores?

Em poucos dias teremos o que pode ser o primeiro turno das eleições gerais; até chegarmos à data do segundo turno haverá o dia que, talvez envergonhados, haverá comemoração do dia dos Professores. Uma fugaz homenagem a quem é constantemente maltratado nessa sociedade que se recusa respeitar-se. Será que se houvesse um real respeito aos professores haveria tanto desrespeito às mulheres, aos homossexuais, aos índios? Será que o respeito aos professores e sua função social não traria uma diminuição dos índices de violência, criminalidade, agressão no trânsito? Se olharmos os povos que escolheram respeitar os professores, voltaríamos – ou passaríamos, a ter orgulho de nós mesmos.

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