Arquivos

A Pátria, a Nação em construção

A Semana da Pátria, período que deveria ser dedicado a reflexão sobre a nação, este ano traz novas razões para debruçar-me sobre ela. Nas nuvens da memória, lembro que havia uma pequena poesia no livro Infância Brasileira, que eu usei ainda nas primeiras séries; não lembro dos versos, mas do sentimento que eles comunicavam, que eram de louvor ao ato ocorrido no distante riacho Ipiranga e ao autor do gesto. Creio que o tive decorado até quando alcancei o Primeiro Ano Ginasial, hoje a famosa Quinta Série. Esse sentimento romântico vem até agora, mesmo depois de todos os encaminhamentos dados pela razão, pelos estudo históricos que tenho realizado, acompanhado por mestres e alunos. E tendo aprendido que o príncipe não era tão perfeito e bonito moralmente, não diminuiu o meu sentimento por aquele gesto simples, mas que foi tornado brilhante e permanente na tela de Pedro Américo. Hoje sei que havia uma mulher, dona Leopoldina que, desde o segundo dia de setembro de 1822, havia decidido a superação dos ligamentos a Portugal e tomado a decisão de que o Brasil passaria a ser dono de seu presente e futuro. Aprendi que na construção do Brasil, o príncipe que assumiu a decisão de Dona Leopoldina, cometeu alguns senões aqui em Pernambuco, não reconhecendo que havia se excedido em dissolver a Assembleia Constituinte. E, entretanto a nação foi sendo juntada, ajustada, com revoltas, traições, mortes e acordos. Nem sempre, talvez quase nunca, esses acordos levaram em consideração todos os habitantes do Brasil. A escravidão, como nos ensinou Joaquim Nabuco, foi prejudicial para os senhores de escravos e para os escravos. Aos primeiros ensinou a não ouvir além de suas vozes e, aos segundos criou impedimentos às palavras, aos gestos, aos movimentos. E, quando teve início a construção da República, esses maus hábitos permaneceram e mantiveram as distâncias entre os brasileiros, o que levou a maioria entender que o Brasil não é deles.

Na Semana da Pátria deste ano de 2018, são muitos os acontecimentos que me auxiliam a pensar no que fizemos, estamos fazendo e iremos fazer com a nossa nação. A semana começou com o incêndio do Museu Nacional, local da guarda de substancial parte material de nossa história nacional, mas também de importante volume de informações sobre a trajetória da humanidade, como demonstravam as múmias egípcias compradas pelo príncipe que confirmou o decreto de Dona Leopoldina, e outros artefatos que estavam guardados no palácio que foi construído por um comerciante de escravos (parte dolorosa de nossa história que deve ser aceita e não negada, mas aceita para nos fazer livres)e que veio a ser moradia dos Imperadores, mas que, após o saque ocorrido nos primeiros dias da República, foi tornado Museu. O incêndio do Museu Nacional tornou público, mais uma vez, o descaso com o nosso passado, com a nossa história. O mais triste é que estava sob a guarda da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Sabemos o quanto os historiadores, antropólogos, biólogos, físicos, e tantos outros estudiosos amavam e amam esse local, mas vimos que, quando alguns professores tornam-se, por oferecimento ou por escolha, burocratas responsáveis por esses equipamentos culturais, ficam insensíveis e não cuidam devidamente do que lhes foi confiado pela Nação, nem acham que devem explicações aos demais brasileiros. Como se não interessasse aos brasileiros o que ocorre com o seu patrimônio, ou, porque esses administradores não sentem que ali está a vida de sua nação. Talvez não se sintam parte dessa nação, talvez tenham outras fidelidades nacionais ou ideológicas. Embora a ação desses péssimos gerentes tenha afetado negativamente nossa Nação e Pátria, podemos aproveitar a oportunidade para ter mais atenção na transmissão dos valores cívicos.

A Semana da Pátria deste ano de 2018, assistiu a tentativa de assassinato de um candidato à presidente da República, em uma rua da cidade de Juiz de Fora, Minas Gerais. Esse acontecimento mostra o quanto nossa sociedade está sendo movida por sentimentos pouco sociáveis, de pouco apreço às leis e aos costumes sancionados, a incerteza da aplicação das leis e a quase certeza da impunidade. Alguns até chegam a solicitar intervenção de instituições externas para garantir direitos individuais, sem considerar que o portador de direitos é, também portador de deveres para com a nação, a pátria e aos seus compatriotas.

Uma nação é construída a cada dia, pois deve ser diária a aceitação de ser parte de uma nação, de um país. Quando esse país aceita a democracia representativa para sua organização e governo, todos que dele fazem parte escolhem quem ficará à frente da caminhada por algum tempo. É para isso que são realizadas periodicamente as eleições. Mas um país é formado por pessoas que pensam de modo semelhante, mas não por igual. Por isso é que são criados partidos que agregam pessoas que pensam de maneira semelhante para apresentar sua proposta à sociedade. É por isso que há tantos partidos, embora no nosso caso parece estar havendo um excedente que pode ser percebido pela ausência de projetos na maior parte desses partidos que, parece terem surgidos com o objetivo de utilizar o espaço democrático para seu enriquecimento pessoal. Alguns não conseguem esconder esse defeito que é da sociedade. Esta Semana da Pátria que, ao lado das cerimônias oficiais, temos que lembrar os que têm sido permanentemente excluídos das conquistas sociais e culturais. Este ano, mais que em outros, devemos nos perguntar quem escolheremos para orientar os passos da nação nos próximos anos, mas devemos levar em consideração que esses quatro anos serão novo início da nossa construção, mas desejamos que haja continuidade e não apenas ruptura.

Curta e compartilhe:

Comments are closed.