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A procissão e o Museu Nacional em chamas

Setembro, dizem, é tempo da Primavera surgir com suas flores e alegria que renova a vida; noutro hemisfério é tempo de recomeçar as aulas e de novos encontros com colegas e encontros com novos colegas de turma. Este ano é início da temporada de caça ao voto, pois teremos eleições para formar os novos parlamentos dos Estados e da União, além de escolher qual será o presidente do país nos próximos anos. Como sempre a disputa está acirrada entre os que prometem o novo para fazer o velho e os que prometem o velho de novo. Este ano vem com a novidade de que temos um candidato condenado por ‘lavagem de dinheiro e corrupção passiva’. Como é o mesmo que assinou a lei que proíbe que pessoas com essa performance sejam candidatos, ele candidatou-se e acusa todos de estarem contra ele e contra os pobres, pelo fato de ele ter sido, faz tempo, um pobre. Essa é uma novidade e está sendo apregoada aos quatro cantos do mundo que o Brasil vive um ditadura terrível, por não permitir que um condenado pelas leis brasileiras possa concorrer à presidência do Brasil. Afinal, se ele já foi presidente deste país enquanto os crimes dos quais é acusado ocorreram, por que razão não permitir que ele volte ao local do crime?

Nessa procissão de desejos presidenciais, encontramos uma diversidade de pregadores do futuro pensando no passado; alguns saudosos dos tempos da ditadura iniciada em 1964, alguns porque a viveram de camarote, como é o caso do candidato que foi militar, outros que, por terem tido vida boa e carro do ano para ‘ir ao zoológico dar comida aos macacos’ e, ainda outros que nasceram quando vencíamos a ditadura, acreditam na história de que aquele foi um tempo bom, o tempo em que seus pais iam ao zoológico. Mas entre os cuidam de sonhar o passado como futuro, estão aqueles que confundem-se com tantas leituras de livros proféticos fantasiados de históricos, e imaginam ‘outros outubros’, como dizia uma música de Ivan Lins, cantada por Elis Regina, uma visão de que a vida é uma ciranda, e nem notam que a ciranda tende a ser um círculo, que roda em torno de um eixo.

Na procissão ainda aparecem andores outros devotos e santos, e todos se dizem melhores que os demais, tendo como argumento básico que os demais não prestam. E eu de meu lugar sei que eles fazem parte do poder estabelecido e que pouca importância reservam aos que vão votar. Incêndios nas matas, assassinatos da flora e da fauna; pouco cuidado e preocupação com a criação de redes de esgotos nas cidades são claros sinais de que jamais, os setores do poder que esses santos representam, importaram-se com a nação.

Enquanto estudo para as aulas de amanhã, soube do incêndio que destruiu o Museu Nacional, guarda da nossa memória, da nossa história. Mas sei que esses senhores que estão no poder e os que pretendem a ele chegar ou voltar, irão discursar em seus andores que há culpados, mas não são eles, pois todos são inocentes. Já posso ver que lerei alguns de seus acólitos procurarão uma data para estabelecer o início do descaso para com a memória da nação e, claro, vão encontrar 2016. Mas todos sabemos que o descaso é desde 1889. In illo témpore criaram uma república sem o povo e, desde então cuidam para que assim permaneça, embora vez por outra deixem que alguns dos seus pareçam com o povo que perece.

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