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Para compreender minha raiva

Vez por outra nos deixamos saber zangados, parte do tempo escondemos de nós mesmo essa irritação que, julgam os outros, que é por um fato específico. O fato específico é a gota de água que faz o copo cheio transbordar, como lembrou a poesia de Chico Buarque nos áridos tempos da ditadura. Nossa raiva ocasional, nossa explosão é mais o resultado de muitas questões acumuladas, deixadas no fundo da alma, queixas não verbalizadas que, de repente afloram e surpreendem. Dizem que os santos são aqueles capazes de sempre cuidarem evitar as explosões de humor, mas todos sabem de cor o que fez o Santo no átrio de Templo.

Neste momento tenho muitas razões para explodir: a notícia do suicídio de um aluno, o suicídio de uma jovem de treze anos na cidade de Goiana, pessoas que jogam o lixo em frente de minha casa, o ônibus que queimou a parada, a desfaçatez de políticos em cultivar mentiras, assistir o silêncio diante da prática de preconceitos sociais e raciais, as artimanhas de advogados para evitar o seguimento da legislação, a atuação de juízes ávidos em promover a soltura de ricos e manter mães na prisão por ter roubado uma lata de leite, um doce e um perfume, a notícias de que a Igreja católica deixou-se encher de doentes (como no Renascimento do século XV) que foram feitos bispos permissivos com a ação de padres doentes em prejuízo de crianças e adolescentes, o comportamento das igrejas que convidam os fiéis a doarem seus bens para que os pastores e bispos vivam no conforto, assistir políticos e partidos mais prontos a destruir a memória e a reputação do adversário que cuidar de planejar uma ação positiva e comum ao bem de todos, e também a minha preguiça e o meu cansaço de dizer essas coisas por julgar que já nada mais adianta. São muitas as razões para explodir em raiva, mas isso não é suficiente, embora seja necessário para manter um mínimo de sanidade mental.

Vivemos mais um momento de crise, mais uma encruzilhada que nos obriga a escolher o caminho que levará ao futuro, esse desconhecido desejado pela esperança de que virá algo bom de nossas escolhas, nas também ele é um desconhecido amedrontador que poderá nos mostrar o erro das escolhas. Não dizemors, mas sabemos que no acerto ou erro, ou que a escolha que fizermos para o futuro não poderá ser mudada, retroagir é apenas uma figura de linguagem distante da realidade que pode ser tentada de nova forma, mas jamais há retorno. Por isso é que as utopias viram saudades, e não parece ser bom alvitre agarrar-se ao que já foi tentado na forma que foi tentado. Uma escolha pelo passado é uma escolha por um novo fracasso, ainda que o que foi escolhido venha com novas embalagens. Novas embalagens é o que é usado para apresentar velhos conteúdos. E, sabem os vendedores de ilusões, a maior parte dos animais humanos alimentam-se dessas falsas novidades, falsas verdades. Aliás, falsas verdades são criadas por aqueles que temem a verdade, e essa é a razão pela qual correm a dizer e ensinar que não há verdade que ela, como a riqueza é relativa. Mais um motivo para enraivecer: assistir a construção da confusão entre a essência e o existencial. Animais de língua grossa não diferem a alface da alfafa.

Mas escrever é conversar e conversar auxilia a acalmar o espírito e compreender a raiva, o que pode evitar a destruição da esperança.

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