Arquivos

Angústias no início do semestre

Nesse tempo que vulgarizou a ideia de tudo é solúvel, inclusive o leite e o café, alimentos sólidos estão a perder a sua importância, para desespero dos nutricionistas, eles mesmos envolvidos na imensa rede de alimentos que não ofereçam muita resistência à arcada dentária. As farmácias oferecem pílulas como complementos alimentares, ricos em fibras, essas que poderiam ser adquiridas com o feijão, a macaxeira e outras raízes que desapareceram das mesas, inclusive, das mais populares. Em Goiana, cidade que pertencia à Zona da Mata Norte, mas por uma decisão parlamentar mudou para Região Metropolitana do Recife, na metade do século XX consumia mais de 30 quilos de inhame por habitante, e agora o consumo é menor que dez quilos por habitante. Sebastião Grosso, Mestre do Coco e da Jurema, viveu do cultivo e da venda do inhame, mas nos últimos dias de sua vida, lamentava essa mudança dos hábitos alimentares de seus vizinhos.

Pois bem, é nesses tempos que vivem os professores de história, uma época que não se cuida tanto da leitura e da reflexão. Essa flexão sobre o que se passou já não interessa aos que não pretendem ser o que Machado de Assis desejava que seus leitores fossem, assim, ruminantes das ideias que ele punha no papel. Aliás, recentemente uma “especialista” em educação e nos estudos sobre Machado de Assis, achou por bem de “traduzir” Machado para os jovens de agora, pretendendo livrá-los desse trabalho ignominioso de buscar o significado das palavras no dicionário. Como se vê, era uma fabricante de comida pastosa, esta que pretende tornar o estômago obsoleto e desnecessário. E o cérebro também. Se o estudante é aliviado da tarefa de buscar o significado das palavras, ele perderá a noção que as palavras possuem uma história, mas a bela criatura que diz ensinar literatura parece pretender isso: que não seja percebida a história, assim, tudo começaria a cada dia e ela reinaria em uma instituição de alienados. Ela pretende ser O Alienista. Ora ler Machado sem as palavras do seu tempo é não ler Machado de Assis. E o que tem o professor de história com isso?

Bem, nesta semana retomo a tarefa de estudar, com meus alunos, a Idade Moderna, quer dizer, estudar como se formou a Europa que nos formou, em grande parte. Acontece que vivemos em um momento no qual a cultura gerada pela sociedade europeia está sendo recusada de maneiras diversas, as tradições e os conhecimentos gerados entre os séculos XV e XX, são servidos como não valores. Muitos buscam a Europa pré-moderna, não necessariamente seu substrato judaico cristão. E, contudo, devo apresentar de maneira positiva aquela sociedade que, alguns intelectuais europeus, bastante lidos ou falados nas salas e nos corredores universitários, dizem que deve ser esquecida e seus valores negados.

Talvez eu esteja dramatizando a situação, talvez não seja bem assim como experimento, mas é um desafio apresentar que a Europa construiu-se enquanto destruía outras culturas fora de seu continente; apresentar que a liberdade, tão desejada por todos, foi sendo criada com sangue e limitação – mesmo negação – da liberdade dos outros; apresentar que o direito de ter iluminação elétrica e boa projeção de imagens é consequência da Revolução Industrial que parece ter massacrado a humanidade. Como entender que a mesma ciência que promoveu a criação de armas tão mortíferas também é responsável pela tão grande produção de alimentos e, ao mesmo tempo, não ter sido capaz de garantir a chegada desse alimento a todos os habitantes. Terei como tarefa, sempre tive, apresentar o drama da construção social da humanidade em seus aspectos dolorosos, a jovens que são educados, desde cedo, para recusar qualquer esforço ou sofrimento, pois o mundo parece ser um dado. Não o objeto, mas o particípio do verbo. O conhecimento não é um dado, mas um esforço ReFlexão, uma dobra sobre si mesmo, para conhecer-se e conhecer o outro.

Curta e compartilhe:

Comments are closed.