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Os desafios de Santana e nosso futuro

Passadas as festas de Santana, o inverno se prenuncia muito mais frio para a sociedade que para o mundo físico. Embora o debate sobre as próximas eleições possam vir a aquecer, o sentimento dos eleitores reais é de frialdade, de quase não perceber que está em jogo o futuro do Brasil.

É evidente que estamos sempre a fugir de reformas inadiáveis para o Brasil, especialmente a reforma no sistema previdenciário. Infelizmente os políticos que temos escolhidos estão mais preocupados com o que interessa a alguns grupos em detrimento da sociedade. Por seu turno, a sociedade brasileira não está disposta a modificar seu comportamento diante uma guerra que, como pipoca, se apresenta em diversos pontos do país, tornando pública a incapacidade do Estado em garantir a convivência social. Os órgãos que formam o sistema estão contaminados, incapazes de fornecer segurança, educação de bom nível, garantia de serviço de saúde; não apresentam condições de promover o sentimento de solidariedade necessário para superar a crise de abastecimento de água, energia e transporte.

A política dos governos do início do século XXI dividiu a população, o que tem tornado difícil o encontro de ideias divergentes sem o sentimento de animosidade e competição. Desejos de realizar sonhos frustrados no século XX, aqui e alhures, impedem que as novas gerações percebam os desafios que lhes são próprios para viverem o que seus avós quiseram viver na segunda parte do século XX. A atual geração, formada por quem perdeu seus sonhos, aprendeu a duvidar de tudo e, dessa maneira não tem confiança nem esperança em si. E, caso encontre alguém com certeza e esperança, lança-se na tarefa de destruir (usa-se o neologismo ‘desconstruir’) tal pretensioso. Enquanto isso, tudo continua como em 1960.

Neste grande debate se põe a questão das religiões, das crenças religiosas que, como previu o historiador inglês Arnold Toynbee, estão sendo o locus de referência social, para além da cidade, das lealdades políticas. As crenças religiosas começam a ser fontes de identidades e, como se sabe, as religiões, apesar de algumas terem discurso de universalidade, acabam por acirrar diferenças, competição, conflitos e guerras, por contas dos dogmatismos fundamentalistas. E o discurso que apela para a luta de classes para gerar a irmandade universal (um fundamentalismo laico), que era justificável nos séculos XIX e XX, quando havia ainda um largo número de fábricas com tecnologias fundamentadas na mecânica, coloca material de alta combustão competitiva, no momento que mais é necessária cooperação que sempre foi fundamental no processo de formação da sociedade.

A criatividade que assistimos no campo das ciências físicas e biológicas, não está sendo praticada pelas ciências sociais, apegadas a teorias que foram esclarecedoras para o entendimento das sociedades geradas pela industrialização, mas que estão em dificuldades no entendimento da sociedade que vem sendo gerada pelas inovações na informática, na nanotecnologia, etc. Por outro lado, como nos ensina a Antropologia, o universo das religiões cambia lentamente. Daí o recorrente conflito entre as religiões e os valores laicos – liberdade religiosa, liberdade de expressão, individualidade -, ainda que estes tenham sido construídos por aqueles, especialmente no Ocidente gestado nos últimos quinhentos anos. Essas contradições não solvidas, pois os debates sempre foram postergados (note-se que o catolicismo passou quinhentos anos negando as obviedades geradas pelas ciências modernas) agora afloram de maneira inadiável.

Santana – a Santa Ana – dita mãe do Salvador, é apresentada na função de educadora familiar, e parece ser desejável que ela incorpore agora as novas maneiras de organização familiar na sua faina de transmissão dos valores básicos necessários para a sobrevivência da sociedade. Sociedade Ocidental, no caso de nossa experiência.

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