Setenta anos da Declaração dos Direitos Humanos

Os noticiários às vezes querem nos trazer boas notícias, mas, como ensinavam os primeiros donos de jornais, a melhor notícia é aquela que parece absurda, pois o ato comum, corriqueiro não convida o leitor, não atiça curiosidade. Uma visita aos jornais mostra o mundo diverso, com boas notícias rotineiras em declínio e boas notícias, as excêntricas, exóticas, extraordinárias, que vendem jornais. Mas o que vi neste dia 21 de junho, o solstício de inverno especial dia que divide o ano, este dia frio que anuncia a nova estação que chega, quase esfria a esperança de uma nova humanidade, o novo tempo que se celebra nas festas dedicadas a São João, aquecida pelo calor das fogueiras. Mas o frio parece congelar os bons sentimentos, neste ano do septuagésimo aniversário da Declaração Universal dos Direitos Humanos, assinada pelos países que fundaram a Organização das Nações Unidas. Aquele 10 de dezembro de 1948 foi um alento, um aquecimento nos sonhos da humanidade após a desastrada experiência da Segunda Grande Guerra do século XX. Essa Declaração é um projeto de humanidade.

Em conversa com os alunos neste solstício, vimos como a dedicação à defesa dos Direitos Humanos assumida pela Igreja Católica no Brasil na segunda metade do século XX, provocou o rompimento da Neocristandade, um arranjo que vinha sendo construído e mantido pelas igrejas desde os anos de 1930, um acordo tácito entre a religião e a política que garantia um estado que considerava apenas um terço da população como merecedora dos benefícios civilizacionais resultante do trabalho de todos. A República do Brasil queria ser moderna/contemporânea sem reconhecer que, mais que a propriedade, é o homem que importa, e que, mesmo sendo privada, a propriedade e o Estado devem estar à serviço do todo.

A luta para garantir os Direitos Humanos – liberdade (pensamento, fala, crença), Igualdade, Vida (o direito de viver e o dever de proteger a vida), Moradia, Alimentação, Mobilidade, Segurança no lar, Lazer, Estudo, Trabalho, Nacionalidade, formar uma família, proteção contra a perseguição política, ter acesso à uma cidadania, entre outros – foi o que uniu a sociedade brasileira para por fim à ditadura que defendia o privilégio de alguns, assim como a luta para superar os estados totalitários levou à proclamação dos referidos Direitos Humanos que deu continuidade às ações dos que fizeram as revoluções dos séculos XVII e XVIII, quando as maiorias começaram a ser vistas e ouvidas, embora que a começo apenas como consumidoras, coadjuvantes, mas vieram a assumir protagonismo nessa sociedade das multidões, às vezes conformadas e às vezes ameaçadoras.

E neste ano de 2018, assistimos a nação que pareceu orientar o mundo para a realização dos Direitos, inclusive o da Felicidade, afastar-se da Comissão dos Direitos Humanos da ONU ao mesmo tempo que lidera uma campanha contra a imigração, fechando as suas fronteiras aos que buscam, em seu território, os direitos que lhe são negados em seus países de origem. Está aquela nação a negar o que ela um dia considerou ser o seu “destino manifesto”. Neste septuagésimo ano da Declaração dos Direitos Humanos, temos a sensação que nos falta muito para aceitar que todos são detentores desses Direitos e todos temos o Dever de garantir os direitos dos outros para que possamos usufruir desses mesmos direitos; ainda precisamos entender que lutar e viver para que todos tenham acesso a esses direitos é diferente de querer unificar os todas as culturas, reduzir o outro ao que somos.

Nesse aniversário precisamos estar atentos para não desistirmos por compreender que há tantas crianças famintas, tantas pessoas impedidas de formar e estar com suas famílias, tantas pessoas que não estão vivendo o direito de saber ler e escrever, o direito de receber uma educação, de receber uma atenção à sua saúde. Mas também devemos celebrar essa data assumindo que tais direitos não serão dados por algum Estado, partido ou agremiações semelhantes: os Direitos Humanos só serão plenamente vividos à medida em que cada um assuma o dever de viver o seu direito, e viver o dever de garantir o direito do outro. O direito de ter uma reputação e respeitar a reputação do outro ou da outra. É desumano tratar uma pessoa como objeto: objeto de satisfação, objeto de desejo, objeto produção, objeto de reprodução, objeto de manipulação ideológica.

Não é fácil, mas é nessa equação colaborativa em busca da felicidade que a humanidade se constrói.

About the Author

Nascido em Carpina, na Zona da Mata Norte de Pernamabuco, cresci no Recife, onde fiz todos os meus estudos em escolas públicas. Sou formado em Teologia no Instituto de Teologia do Recife - ITER; licenciado em História pela UFPE, onde defendi dissertação sob o tema "A Primeira Guerra Mundial na Tribuna religiosa: o nascimento da neo-cristandade" e a tese doutoral "Entre o Tibre e o Capibaribe: os limites da igreja progressista na arquidiocese de Olinda e Recife". Publiquei Anotações para uma visão de Pernambuco no início do século XX, pela Editora Universitária UFPE. Sou pai de Ângelo, Valéria e Tâmisa,filhos de tereza; e avô de Rafael, Lucas, Tereza e Carolina . Agora sou pai de Isaac, filho de Manuela. Tenho pesquisado a cultura e a sociedade da Zona da Mata Norte de Pernambuco e dessas pesquisas publiquei Festa de Caboclo; Estrela de Ouro de Aliança, a saga de Uma Tradição; e Pretinhas do Congo, uma nação africana na Jurema da Mata Norte.