Biu Vicente » Família, infância, Capibaribe: meu rio

Arquivos

Família, infância, Capibaribe: meu rio

As manhãs têm as suas manhas. São essas pequenas passagens do tempo, o tempo do sonho em direção ao tempo da azáfama, do repouso para o movimento traduzido em sons e suores. O início da manhã carrega o fim da noite, o sonho que parece não ter acabado. Nesta manhã comecei com a paisagem distante da pequena propriedade que meu pai tinha, ali na beira, em uma das margens do rio Capibaribe, onde passei meus primeiros anos que ainda lembro. Imagens fugazes, fugidias, como a de um ladrão que escapava pela janela, no início da noite, enquanto nós tomávamos o “café da noite” que hoje chamo de jantar. Aquele vulto pulando para fora de nossa casa ainda está pregado na minha memória, ou imaginação, de menino de quatro anos. Não sei, nem posso mais confirmar isso com minha mãe ou meu pai, ele que me vem na lembrança a sair, com uma arma na mão, em direção da escuridão. Na volta teria dito que foi até a casa de meu tio Sérgio, irmão de mamãe, que marava para as bandas do lado esquerdo, em direção de Apuá. Na manhã seguinte, esse foi o assunto na bodega que ficava na parte da frontal da casa.

A lembrança daquele fim de dia, vem sempre acompanhada com outras, a de ficarmos comendo pimentões ou chupando laranjas na calçada da casa. Outras lembranças chegam, e quando seguimos para o lado direito em direção do Engenho Eixo Grande, onde moravam minha tia Djanira e seu esposo Luiz Cavalcanti, Tio Lulu e suas filhas: Inês, Graça e Fátima. Sempre gostei muito de Graça. Depois de uma viuvez precoce, Tio Lulu casou mais uma vez, com Julinha, irmã de Djanira e teve mais filhos. Marcelo, Isabel, Lulinha. Muitas férias escolares ali passei, depois que já o Recife nos abraçara, em nossa fuga em direção do futuro.

Daquele mundo tenho muitas lembranças, sendo uma delas o que talvez seja a minha mais antiga ligação com África, a existência de Zé de Mina, um negro esbelto e sorridente que era sempre o sucesso nas festas, porque era um exímio cozinheiro, além de lavrador da terra seca, mais distante da margem do Capibaribe.

Do outro lado do rio moravam meu padrinho Cazuza, que era irmão de Lulu, e Odete, sua esposa e minha madrinha. Esse Capibaribe de minha primeiríssima infância, na beira do canavial sempre volta; nostálgico daquelas primeiras alegrias que é cada vez só meu, pois o tempo já engoliu alguns dos personagens que viram meus primeiros assombros na vida. Nem sei o nome deles, apenas alguns gestos que ficaram a me ensinar que é assim o curso da vida: fazemos algumas barragens, como a que fizeram em Apuá, guardaram o Capibaribe para que ele chegasse manso no Recife, e não caudaloso, como sempre foi desde Carpina.

Sou agora, como esse Capibaribe quase morto que tranquilizou, na capital, os filhos dos migrantes da Mata Norte: Eles nem imaginam como era forte meu Capibaribe!

Especialmente para meus primos,os filhos de Tio Lulu.

Curta e compartilhe:

Comments are closed.