Biu Vicente » Processo histórico ou milagre de Macunaíma

Arquivos

Processo histórico ou milagre de Macunaíma

Talvez eu não devesse começar essa escrita em hora tão difícil e com uma nação sem norte, sem uma liderança mas com chacais incentivadores do caos, desejosos de produzir o alimento das hienas. Comove ler, nas redes sociais os apologistas do caos, alguns defendendo o atual desnorteado que está no poder e outros pugnando por desorientados que anteriormente comandavam o país. Nem de longe vejo a percepção histórica, a compreensão de que à história, diferente da sociologia, importa mais os movimentos de média e longa duração. Evidentemente que o instante provoca a chama, e faz conhecer o que, embora ainda encoberto, começa a ter dissipadas as nuvens que se põem entre o observador e o observado. O processo de compreensão não é uma iluminação instantânea, não é um milagre, uma teofania. Provavelmente tais fenômenos existem quando se aceita e se vive a partir de uma opção religiosa, essa que admite que há uma graça que nada exige para ocorrer, e que lhe chega por decisão externa a você que a recebe. O conhecimento, por outro lado, exige disciplina e humildade constante. Os grandes da razão sabem que o seu saber vem do seu esforço, da aceitação de que outros homens antes de si, criaram as escadas para sua subida, para pudessem ver melhor e mais longe. “Somos anões sobre os ombros de gigantes”, disse um deles.

A situação do Brasil não está fácil. Quando saímos da ditadura civil militar sonhamos com um país com todos os direitos que eram garantidos aos europeus que viviam na social democracia, mas não tomamos conhecimento de eles construíram aquilo com seus trabalhos e, não há como negar, com a exploração colonial de outros povos. Fizemos uma Constituição que garante tudo a todos, mas não modificamos em nada as estruturas sociais nem nossa mentalidade. Alimentamos o poço do desejo com o descompromisso com a sua construção. Não aprendemos o que o Padre Mestre Ibiapina ensinava, no século XIX, em suas Casas de Caridade. “Pouco adianta ir dormir com fome e sonhar estar comendo cuscuz com leite, carne e melancia, pois se acordará com fome.” Mas, quem se importa com esse padre desconhecido se já temos os intelectuais que nos chegam do outro lado do oceano: loiros, bonitos e falando as línguas da filosofia?

Um desses europeus, Norbert Elias, estudou a formação da sociedade europeia e chegou à conclusão ela levou cerca de trezentos a quatrocentos anos para chegar à civilização que alcançou no início do século XX. E, claro, ela exportou esse modelo de civilização para os povos com os quais manteve contato ou ajudou a formar. Um brasileiro, Darcy Ribeiro, estudou a relação das Américas, o Brasil incluso, com a civilização europeia moderna. O Brasil e o processo civilizador europeu têm a mesma idade.

Em seus estudos, Darcy Ribeiro definiu o Brasil como um Povo Novo, gestado na Revolução Mercantil e crescido nas Revoluções Industrial e Termonuclear. Ele chama atenção ao fato de o Brasil não ter realizado nenhuma revolução tecnológica, não ter criado uma tecnologia, tornando-se, basicamente um consumidor das tecnologias advindas das revoluções externas a si, sendo obrigado, constantemente a realizar Atualizações Históricas para usufruir, pagando as vantagens que cada nova tecnologia lhe é apresentada. Seja dizer, aprendemos a não fazer, apenas a consumir. E, penso, sem fazer não temos noção do que é necessário para dar um salto qualitativo e deixar de fazer Atualização Histórica para promover a sua Aceleração Evolutiva. Então, quando isso acontecer, seremos autônomos e senhores de nossos destinos. Mas isso implica em trabalho, disciplina, organização, planejamento, vontade objetiva em direção do objetivo. Poder-se-ia começar pela superação do analfabetismo.

Outra alternativa é realizar outro tipo de Atualização Histórica: fazer, aos fórcipes, a revolução política, como as da Rússia, China, Cuba, Líbia, Coréia do Norte, Nicarágua, Venezuela. Revolução sem construção de conhecimento científico autônomo e com povo dominado pelo fascínio de personalidades e algumas vantagens para alguns grupos.

A terceira alternativa é assumir ser Macunaíma, esse herói sem caráter que deveria ter uma estátua na Praça dos Três Poderes, além de substituir Zé Pereira neste imenso carnaval. Milagre é a esperança de Macunaíma.

Severino Vicente da Silva

Curta e compartilhe:

Comments are closed.