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Algozes de Marielle

Quando Marielle Franco, assassinada no dia 14 de março de 18, completava cinco anos de idade, os que hoje estão além dos sessenta anos de idade, estavam, naquele ano, pondo fim à ditadura que se implantara em 1964. E então, proibidos de participação política durante duas décadas, os brasileiros começaram a eleger alguns dos proibidos para as funções de vereadores, prefeitos, governadores de estado, deputados estaduais e federais, senadores e presidentes da República. Aos poucos essa geração desejosa de democracia e que lutou contra a ditadura (alguns porque desejavam outro tipo de ditadura e outros por quererem uma democracia liberal) foi tomando os destinos do Brasil em suas mãos. Além daqueles que assumiram os poderes mais explícitos, muitos foram feitos secretários de educação, saúde, transportes, segurança, e tantas outras; outros assumiram cargos nas procuradorias, tribunais, reitores de universidades, etc. Isso quer dizer, nas últimas quatro décadas, essa geração decidiu sobre política econômica, política educacional, política de saúde, política de segurança, política ambiental e mudou o Brasil. Mas, o assassinato de Marielle, após uma reunião em defesa dos brasileiros de cor negra, mostra que essa geração fracassou em seu projeto, embora alguns tenham tido sucesso quase absoluto em suas vidas privadas.

Fracassaram as tentativas de na educação, pois parecia que a cada quinze dias se queria provar uma nova metodologia, um novo teórico; a pressa de mudar permitia a perenização de costumes antigos e, que bobagem, oferecia condições para os novos professores aprendessem a prática de não aprender o novo. Fracassaram as tentativas de política de segurança, talvez por se ter definido o policial, o militar como inimigo permanente, mesmo que esse policial tivesse apenas vinte anos. Viveu-se um período de desejo de vindita, pois os principais líderes chegaram com o discurso de guerra, de uma guerra que havia sido vencida pelos que negociaram o novo pacto social, mas, aos poucos o pacto foi sendo esquecido, menosprezado e, parece que havia sido definido fazer uma revolução permanente. E tudo que havia antes tinha que ser esquecido, inclusive as coisas boas. Simultaneamente foi assumida uma ideia de que a contravenção, a subversão era positiva (afinal quem chegava ao poder depois de 1985 havia sido subversivo nos anos anteriores). Por alguma razão não se percebeu que a nova subversão era não permitir a sociedade liberal. Fracassaram as políticas de saúde, como comprovam os hospitais mal administrados por quem parece jamais haver estudado ética médica, ou desenvolvera qualquer atividade de cunho social. Houve um fracasso na construção de uma sociedade participativa e cooperativa. Fracassou-se pois, ou invés de viver o presente e construir o futuro, preferiu-se o passado: parte dele para ser imitado e parte para ser odiado.

Nessas quatro décadas, retirando o período de Sarney, todos os titulares do governo federal eram jovens e discursavam contra os desmandos dos ditadores e a corrupção que nela existiu, como os 10% de Delfin Neto (este veio a ser conselheiro dos recentes presidentes) e suas aulas aos estrangeiros de como burlar as leis de compra de terras no Brasil. Mas os novos governantes pegaram atalhos e, neles, enriqueceram, enquanto pequenas melhorias eram realizadas, tornaram-se corruptos. E verificando a idade de Marcelo Odebrecht – 49 anos – e dos que estavam no poder (o mais novo tem 62 anos), podemos perguntar quem foi o líder de quem.
Eis algumas razões para avaliar uma geração que esteve no poder, enquanto continuarmos a tarefa de construir uma sociedade mais justa, mesmo sabendo que estamos lutando contra um sistema forte, mas não será repetindo os atos que tornaram o Brasil um país com um povo deseducado, um povo doente, um povo cultivador de esperança enquanto observa que ela lhe escorre pelos dedos, com a rapidez de um Trem Bala que lhe foi prometido e nunca entregue. O assassinato de Marielle denuncia que houve leniência e que se abandonou os moradores das periferias das cidades a grupos de marginais, no Rio de Janeiro e, creio que se pode dizer em todas as capitais e cidades de pequeno porte; o assassinato de Marielle Franco denuncia os discursos vagos e sem compromisso real com a educação básica, média e superior, e com o ensino público de boa qualidade, pois apenas se continuou com a má qualidade da época da ditadura; a ânsia pelo reconhecimento internacional fez com que as prioridades fossem invertidas. E nessa inversão, alguns levaram as suas vidas para as privadas e lupanares da corrupção, enquanto continuavam com um discurso em que dava aparência de que não estavam no poder. Essas são algumas das razões do assassinato de Marielle. É terrível que Marielle tenha sido morta dessa maneira, um modo que nos leva a lembrar a morte de tantos que morreram para que nem ela nem ninguém mais fosse emboscado por suas ideias. Marielle era parte de uma geração que já foi cuidada pelos que chegaram ao poder em 1985. o assassinato dela nos acusa a todos, especialmente os que estiveram à frente das instituições e que fraquejaram seduzidos pelos conforto do poder. Cada vez que alguém é morto por sua cor, sua crença, suas ideias, seu gênero, todos temos responsabilidades pelo acontecimento.

Enquanto continuarmos colocando a culpa nos outros, continuaremos favorecendo os assassinatos de centenas de Marieles, e faremos muitas vigílias. Só haverá um começo quando os que estiveram no poder nas últimas décadas do século XX e nas primeiras do XXI admitirem que erraram, talvez sem intenção, em não priorizar os verdadeiros anseios do povo brasileiro. Nossos líderes Quiseram ser líderes no mundo e não soubemos ser líderes de si mesmos.
Biu Vicente

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