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6 de março – Dia Santo de Guarda

É a primeira vez que o dia 6 de março é comemorado como um feriado em todo Pernambuco. Feriado é um dia excepcional, desses que existem para serem vividos de maneira intensa, pois nele se vive uma humanidade. O feriado existe para que pensemos sobre o que ocorreu no passado de tão intenso que nos obriga a não trabalhar, uma vez que o feriado é um Dia Santo. As religiões possuem seus momentos extraordinários, convocam seus adeptos para refletirem mais sobre o significado da vida. Um dia de féria, um dia de não trabalho, um dia dedicado a lembrar, a tornar atual algo que funda, que indica a origem daqueles que feriam. Assim ocorre com Páscoa dos judeus e dos cristãos; assim com o Ramadá dos mulçumanos; assim ocorre no 4 de julho dos americanos; assim se faz no 14 de julho na França; assim é no 6 de agosto; assim se fazia no mês de outubro na extinta URSS; assim se faz em todos os países e nações que param para lembrar o ato que fundou, ou que indica o momento de sua existência como unidade na diversidade que os formou.

6 de março é para os pernambucanos o momento sagrado de sua história, quando um grupo disse que não mais seria possível viver sem liberdade, dominado por uma corte que só agia em seu próprio benefício, arrancando a vida de muitos, através de impostos, para beneficiar uma parte pequena dos que formavam o Reino do Brasil; 6 de março é o dia em que foi definido que ninguém seria chamado de ‘senhor’ ou senhora’ pois nenhum homem é submisso a outro, todos somos cidadãos; 6 de março é o dia em que se definiu que em Pernambuco não há lugar para dominação do homem sobre o homem. E, entretanto, este propósito foi derrotado alguns dias depois pelos déspotas, os que vieram de fora e os que viviam em Pernambuco. Sangue foi derramado por ódio e amor à liberdade, à igualdade e a amizade entre os homens. E nem pediram indenização, como fazem os profissionais das suas revoluções.

Quando hoje celebramos o 6 de março, estamos nos comprometendo a continuar a busca de uma pátria, de uma nação livre e amiga, assim como continuaram gente como Gervársio Pires Ferreira que assumiu o governo de Pernambuco em novembro de 1821, quando o “carrasco de Pernambuco” assinou a rendição próximo ao rio Beberibe; assim como continuou Frei Caneca em 1824, recusando aceitar uma constituição que não visava o interesse de um povo mas a empáfia de um tirano; assim como continuou Pedro Ivo e Nunes Machado, em 1848, ambos mortos enquanto lutavam pela igualdade de tratamento entre os que formam a nação; Assim como, fora dos espaços do poder, o povo pernambucano foi construindo sua identidade nas ruas, pois os que se apossaram da nação não entendiam que o tempo da escravidão havia passado enquanto ele buscavam lucros para si em cada tonelada de cana derrubada pelos trabalhadores e transformada em açúcar que os fazia amargar nas ruas, e desse amargor vieram as mais belas mostras de amizade construída nas lutas: vieram os frevos, vieram os maracatus, vieram os clubes, veio a vida nas músicas. E vieram, de novo tomar essa vida e, quando isso acontece, o povo pernambucano encontra outro meio para se afirmar livre.
Nessa época em que tantos não sabe quem são, nós sabemos que somos pernambucanos, que somos homens e mulheres livres, que somos parte da humanidade que não se envergonha de sua história, pois a sua história é de busca da liberdade, ainda que os guabirus e catitas nos queiram dominar, julgam nos dominar. Tomemos esse 6 de março em homenagem aos que, se recusaram a usar o dinheiro do povo em seu benefício, e morreram com dignidade em nome da sua pátria que queriam livre e de igualdade generosa para cada um.

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