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Carnaval pode ser o sonho de não mudar

Quase todos de nós sabemos que o tempo flui mais rapidamente com o passar dos anos. Alguns não percebem o tempo passar, confundem-se com ele, sentem que as carnes vão se tornando mais moles e os passos menos rápidos e que nada se pode fazer pois a vida é assim. Vive-se para morrer. Não conseguem perceber que enquanto se vive, vive-se o processo de morrer, mas, o que a morte será, depende de como se viveu para a ela chegar. Seguindo o movimento do universo da maneira que dele temos consciência contamos o tempo. E assistimos a sua passagem ou nele nos fazemos ao caminharmos nele. Ocupados em vivê-lo plenamente, notamos que ele se esvai independente do que fazemos. O tempo não nos nota, notam-nos os companheiros de nossa viagem com e no tempo: somos notados pelo que fazemos e pelo que nos recusamos a fazer. E podemos nos recusar.

Fevereiro passou com o seu carnaval. Alguns dizem que essa festa é cristã por não perceberem que o cristianismo quis apenas dar-lhe um novo sentido com a invenção da Quarta Feira de Cinzas. Atualmente um pedaço da população que teve contato com o cristianismo recusa-o, simbolicamente, expulsando a cinza da Quarta feira. Há uma recusa em admitir que se voltará ao pó cósmico de onde viemos, deseja-se a eternidade que o carnaval oferece, quer-se superar o cansaço, ou negá-lo, pois é o cansaço que nos lembra que somos partículas momentaneamente organizadas dessa forma pela qual nos apaixonamos. Quer-se permanecer enquanto o tempo se movimenta.

À impossibilidade da permanência cria-se a recorrência. A cada ano um novo carnaval alimenta a impressão de que nada mudou ou mudará. Esse sentimento parece permear, ou dominar, os parlamentares brasileiros que, com os olhos em utopias, continuam a refletir sobre a sociedade brasileira a partir das informações sobre a realidade da década de 1950. Vivia-se um tempo de transição tardia, em relação a outras regiões do mundo, a transição do rural para o urbano com tudo o que isso acarreta ou tem acarretado neste Ocidente no qual vivemos, não como um “acidente” como um dia definiu Roger Garaudy, mas como a escolha que nações europeias vinham a fazer, desde o século XIII, na direção de uma sociedade com predominância dos valores mercantis. Nos anos cinquenta dos novecentos, ampliava-se a crítica ao modo de viver que foi gestado nos séculos anteriores, um mundo voltado para a satisfação plena do indivíduo à custa da organização do coletivo. Nada de novo se podemos olhar como era o Egito de Ramsés, a Pérsia de Dario, a Esparta de Leônidas, a Roma de Otávio, a China de Mao, a Alemanha de Hitler, a Corte de Carlos Magno, a Florença dos Médicis e Savanarola, o Louvre de Luiz XIV, o Petit Trianon de Maria Antonieta e tantos outros de glória. E foi também o momento de expansão da secularização do sebastianismo em torno de um Cavaleiro da Esperança. E é essa lembrança a que se agarram os parlamentares: um por receio de seu retorno, outros com o desejo de fazê-lo retornar. E então nos agarramos nessa análise prenha de passado, que não permite a viver a largueza da história. Eles continuam a pensar que a expectativa média de vida dos brasileiros é 35 anos, como em 1950, e esse pensamento é a base de seus discursos que conseguem audiência, pois a maioria dos brasileiros, mesmo aqueles que frequentam universidades, vivem no mundo da cultura oral. Poucos leem, menos ainda refletem sobre o que ouvem. São tradicionalistas gritando serem arautos de novidades revolucionárias.

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