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Cegos condutores e cegos seguidores

Cada geração humana tem construído condições que garantiram a sua sobrevivência e, mais importante, simultaneamente vieram favorecer a geração seguinte. Parece que a princípio esse foi um objetivo individual que, por força do gregarismo a que os humanos são obrigados por conta de sua fragilidade física diante as demais espécies, foi se tornando coletiva. É evidente que a organização do cérebro permitiu a compreensão de que o presente, embora absorva tanto, não é a única realidade para os humanos que, foram construídos com a capacidade de sonhar enquanto dormem e, principalmente enquanto estão acordados. E é a realização dos sonhos da vigília que promoveu o surgimento da cultura, seu crescimento nas diversas partes do planeta. E foram sonhados deuses, cidades, impérios. Em todos o sonho da imortalidade, o sonho de ser como os deuses que sonharam, ou o Deus que os sonhou.

Não morrer, não ser esquecido de imediato tem sido o sonho dos homens e das mulheres, conforme nos indicam as narrativas que sonharam explicar a origem da humanidade. Cada grupo que veio a formar civilização criou os remédios para seus sofrimentos e para alongar seus dias. Aos poucos esses conhecimentos, por conta de processo iniciado na península europeia no século XIV, passaram a ser trocados, comercializados e foram se tornando, ou deviam estarem sendo tornados, algo comum a todos os grupos humanos. Mas valores não são herdados biologicamente, a seleção é feita de outra maneira, é cultural e, um sonho não realizado pela humanidade é a eliminação da cobiça, do egocentrismo. Talvez seja esse o maior desafio da humanidade, pois até as religiões estão carregadas de líderes que pensam com o seu estômago e não no estômago dos demais humanos.

Por não vencer esse desafio, assistimos o crescimento dos corruptos em todos os níveis e sociedades; eles crescem, pois assumiram também os postos de comando intermediários, antes destinados a bajuladores, gente sem siso. Mas compreenderam que gente sem vergonha vende-se a quem os queira comprar, e assim esses cargos estão sendo ocupados por familiares. Vivemos um momento especial, pois assistimos o desmonte de uma das muitas redes de influência e dominação. Essa rede mais jovem está confrontar-se com seus erros, um dos quais foi a corrida rápida para o paraíso. Os mais antigos, que foram seus aliados por algum tempo, sabem que o poder é uma corrida longa, uma interminável maratona. Os seguidores desses aprendizes de senhorio. os viram como redentores e vingadores, pois tudo parecia ser o caminho da redenção, da sinecura que os manteria e aos seus netos. E por saberem dos pobres a partir dos olhares de seus automóveis, descobriram que estão a naufragar com os seus pobres, esses que puseram nesses novos senhores, esses novos ídolos, a sua esperança. Cegos conduzidos por cegos.

Esses cegos não perceberam que após 18 anos do século XXI, quase metade das escolas do Brasil estão sem saneamento básico (isso quer dizer em cagador para os alunos, alunas, professores e professoras). E se há, na maior cidade da América Latina no século XXI, drama semelhante à maior cidade do Brasil no início do século XX, uma endemia de Febre Amarela, é porque os novos senhores agem como agiam os antigos coronéis. Pouco se preocupavam com a sobreviência dos que não podem sobreviver. Os novos senhores e seus cegos seguidores estão dominados pelo mosquito transmissor da cobiça e do egocentrismo.

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