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Nova encruzilhada: Nada será como antes

Costumamos sempre comparar a atual situação do Brasil com a de outros países, seja para nos glorificarmos seja para nos humilhar. Mas a questão mais importante é: o que eles fizeram e nós não fizemos; parece que partimos da premissa que foi apenas porque eles nos exploraram. Talvez não. Talvez eles tenham decidido sofrer um pouco para atingir algo. Talvez eles vieram a construir um ideal comum, ultrapassaram algumas divergências entre si. Nós precisamos confiar mais em nós; devemos ensinar exemplarmente como se deve agir, não em busca de vingança, mas com ações de renovação. Claro que temos uma elite política horrenda no Congresso. Segundo alguns analistas é um dos piores congressos que já tivemos. Mas ele é um retrato nosso, ele não é uma invenção externa, mas foi construída nos últimos trinta anos. Alguns membros deste congresso estão lá desde então. Claro há sempre a questão do passado escravocrata que marca a todos: a uns porque só sabem mandar, e por isso não sabem; a outros que só sabe obedecer, e por isso não sabem o que é obediência. É que os que mandam também não sabem a direção do mando; como não têm sonhos ou projeto para o futuro da nação, cuidam de evitar que haja mudança, pois não saberiam o que fazer se houvesse mudança, pois mandam como mandavam seus antepassados – os mais antigos e os ainda vivos. Os que obedecem apenas fazem o que lhe mandado, pouco interessa em saber o porquê lhe mandam: repetem sempre: “manda quem pode, obedece quem tem juízo”, frases construídas nas experiências dos engenhos, fazendas, escolas (uma vez um professor me disse após ler um artigo meu: guarde-o ou queime-o, pois embora esteja certo o que diz, há pessoas que não gostarão e você será prejudicado), oficinas, igrejas, sindicatos, partidos. etc. Enveredamos pouco na direção de uma educação, tanto nas escolas quanto nas famílias, igrejas, sindicatos, etc.

Momento inquietante em sala de aula, seja nos ensino médio, seja no superior – minhas principais experiências, embora tenha tido duas anos de prática docente nas quinta e sétima séries -, é quando, professor, faço uma pergunta e, a responda é um silêncio. Necessários vários minutos para que algum aluno balbucie, de modo quase inaudível, uma resposta. Há três pavores nesses silêncios: o de cometer um erro e desagradar o professor, além de ser alvo de zombaria pelos colegas. Este é outra face do comportamento do aluno que, ao receber uma tarefa, uma prova a ser realizada, pergunta ao professor: Como o senhor que se responda. Após essas quase cinco décadas de ensino, verifico que o medo é o principal currículo de nossas escolas: o medo de perguntar por temer passar por tolo; o medo de perguntar por temor de que o professor ache sua pergunta uma bobagem; o temor de ser chacota dos colegas; tudo isso leva ao medo de pensar. Assim as palavras não fluem do pensamento, as palavras calam, o cérebro fica paralisado, nada intenta, desmonta-se pela sedutora ideia de que fazendo o que o “senhor” ou a “tradição” mandar, tudo estará resolvido. Ora, dessa forma aprende-se a escravidão, a servidão. E uma nação não é construída por servos, ela é construída por pessoas que se estimam, que se orgulham dos acertos e das vezes em que o acerto foi buscado. Quando saímos da ditadura cantamos a superação daqueles dias, e nossas ações voltaram-se para o passado (interessante a quantidade de líderes pré 64 que vieram nos salvar do presente de 1985) e não olharam como o futuro deveria ser construído, mas usufruído. Nossa Constituição nos aponta direitos e quase nenhum dever, nos aponta a prazer, como se 1988 no Brasil fosse ainda maio de 1968 na França.

Estamos em mais uma encruzilhada e, mais uma vez podemos fazer a aposta pelo passado acreditando que ele nos aponta o futuro. 2018 não 2002. “Nada será como antes, amanhã,” cantava Milton Nascimento em 1976. A frase continua a valer para os dias atuais Temos que acreditar e agir nessa crença..

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