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Mistério, Heróis, moedas, futebol e universidades

Quase o fim do ano, quase o fim. O fim da paciência, o fim de tentar compreender que sou insuficiente para aproximar-me do mistério. Tudo parece ser um mistério que a sociologia não alcança, que a filosofia não desconfia. O Brasil virou a Mangueira de Paulinho da Viola: “é um pouco mais que os olhos não conseguem perceber, as mãos não ousam tocar e os pés recusam pisar”. Parece ser esse mistério, mas não é. É uma incógnita, dessas utilizadas por professores em sala de aula com o objetivo de aproximar-se da realidade, essa que os olhos não veem.

Crescido na periferia do Recife, e conheci desde cedo a desigualdade social e a dificuldade que tínhamos para conviver com os conceitos sociais que humilham a maior parte dos brasileiros. Quando queriam nos ofender, nos chamavam de índios. Os que pensavam dominar-nos nos ensinavam a ter vergonha de nossos antepassados que com sua cultura gerou o Brasil. Os livros que eu estudava falavam de heróis formadores do Brasil: Tibiriça e Felipe Camarão eram os únicos índios que nos eram apresentados. Negros, que também me formaram, aprendi mais sobre eles: Henrique Dias, Manuel Faustino, Marcilio Dias, José do Patrocínio, Ganga Zumba e Zumbi dos Palmares. Aprendi gostar de todos. O aprendizado das aulas era complementado pelo uso da moeda. Anos depois aprendi que se dizia ser a imagem o livro dos analfabetos. E o Brasil, por opção dos portugueses e dos brasileiros, é um país de analfabetos.

As moedas ensinavam o valor dos heróis. Nelas não havia nenhum índio, nenhum negro. Eram todos brancos, portugueses e brasileiros. Alguns eram apresentados pelo título que receberam por servir à pátria ou nação, vim aprender seus nomes bem mais tarde. O valor da cédula, pensava, dizia a importância daquele personagem na história do Brasil. Houve um tempo que Getúlio Vargas valia dez e a Princesa Isabel valia cinquenta cruzeiros. Dom Pedro II valia cem cruzeiros e o Barão do Rio Branco era cinco cruzeiros. Na ditadura, a inflação iniciada com Dutra e Juscelino levou Santos Dumont ser Mil Cruzeiros enquanto Tiradentes valia Cinco Mil. No tempo do Cruzado, Villa Lobos chegou a ser Quinhentos enquanto Juscelino não ultrapassava Cem. O fim da ditadura veio acompanhado com o fim dos heróis: na história e nas cédulas. O pessoal leu muito Brecht, especialmente a frase: “infeliz o povo que necessita de heróis”. Tem gente que não gosta dos nossos, mas cita adoidado o pessoal do outro lado do Atlântico. O medo do fim da fauna levou à homenagem aos animais que poderiam desaparecer.

Tem desaparecido muita coisa no Brasil, uma delas é o bom futebol, aquele gerado nos campos de várzeas e nos fundos de quintal, como os bons sambas, entre os anos dez e setenta do século passado. Antes do acirramento do processo de globalização, o Brasil ganhou dois títulos mundiais com jogadores criados nos clubes da terra. O que havia chegado como brincadeira para gente empregada, virou xodó de desempregados ou dos operários, como era na Inglaterra. Depois de setenta começou a era das ‘escolinhas de futebol’ e a exportação de jogadores feitos, pois, como os japoneses fizeram com a tecnologia industrial, os clubes europeus queriam aprender como se faz um Pelé ou Garrincha, ou, na sua ausência um Ronaldinho, pouco importa que seja gaúcho ou carioca. Pagavam o que se pedia, ofertavam mais até. Agora não levam mais os jogadores prontos, preferem comprar, sim, comprar como se compra um animal na petshop, uma promessa de diversão em casa. Os que vão não voltam, pois um país sem heróis e que usa a moeda para mostrar que exterminou espécies animais, não pode garantir a boa vida dos gênios do futebol. Nem eles querem vir. Uma vez li que Zico disse: antigamente havia o desejo de jogar no flamengo, Santos, Fluminense. Hoje o pessoal só pensa em Barcelona, Liverpool, etc. Claro que esses rapazes que são comprados ou alugados, por terem nascido no Brasil, virão fazer parte da seleção brasileira, pois no Brasil já não há jogadores de “nível de seleção Brasileira”, como dizem os resenhadores de futebol nas rádios e televisões. Aqui agora se não se pratica futebol, mas há um esforço para termos os mesmo espetáculos dos hollingans, que eram comuns no tempo em que os times europeus não sabiam jogar futebol com os brasileiros sabiam. Agora eles sabem, aqui não mais.

Coisa semelhante acontece com as universidades. Fazemos um esforço enorme para formar alguns bons estudantes no segundo grau. Cada vez mais esses terminam indo cursar algum curso universitário no exterior. Físicos, químicos, engenheiros e assemelhados para os Estados Unidos, Alemanha e assemelhados. Para a Espanha e França seguem promessas de historiadores e sociólogos. Vivem em ponte aérea. Assim nosso futebol e nossa ciência perde a oportunidade de criar o novo em quantidade suficiente para gerar qualidade. Para tal é necessário investir nas divisões de base e, também garantir a permanência do pessoal local, superando o aristocratismo que só prejudica a todos em benefício de alguns que gostam de lustrar sapatos.

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