Arquivos

Arquivo Público Municipal Antonino Guimarães – Olinda

Andar em Olinda, penso que é o mesmo em todas as cidades, é acompanhar o movimento da vida, diversos momentos de tempo e emoções em um mesmo momento. Andar em uma rua e, de repente auxiliar a recolher cédulas de dois reais que um vendedor de loterias, descuidado, não notou o vento que vinha do oceano, viu escapar de suas mãos em direção da avenida em trânsito das 10 horas da manhã. Acontecimento fugaz que fará parte de algumas conversações do dia em algumas das residências ou bares dos subúrbios da cidade, os subúrbios mais pobres, aqueles habitados por gente que anda com as importantes cédulas dois reais nos bolsos. Esse acontecimento dificilmente fará parte dos documentos que estão guardados no Arquivo Público Municipal Antonino Guimarães, da cidade de Olinda.

Lugar comum dizer que o Brasil, país de fraco cultivo da sua memória, não tem uma política de Arquivo, uma política para guardar cientificamente a sua memória, a memória pública que é construída por todos. No Brasil, os arquivos são como cédulas de dois reais, são muitos os que dela necessitam, são muitos os que andam com elas nas carteiras, e são muitos que deles necessitam para comprovar que são alguém, que são possuidores disso ou daquilo, que são herdeiros de pedaços das cidades. Mas as cidades não cuidam dos arquivos. São poucas as cidade que têm organizados os documentos que interessam aos seus cidadãos.

Ir a Arquivos é uma devoção dos historiadores, ao menos deveria ser. E os devotos cuidam de seus santuários. Historiadores raramente são convidados a opinar sobre arquivos de suas cidades; quase nunca estão à frente dos arquivos existentes, pois eles, quando existem, são moedas de dois reais, de pouco valor para o mundo dos políticos, mas são usadas para acarinhar este ou aquele aliado ainda insatisfeito no butim do estado. Os arquivos públicos são moedas de troca, mas estão sempre entre as menos valorizadas, daí que não haja verbas para eles e, então, não há interesse por eles. Mas são mantidos enquanto não morrerem de inanição.

Este ano de 2017, quando comemoramos o bicentenário da revolução que pretendeu acabar com os privilégios, tornei-me frequentador do Arquivo Público de Olinda, especialmente por conta de um projeto de extensão universitária. Levei alunos para conhecer o Arquivo Público Municipal Antonino Guimarães; revi amigos, fiz pesquisas e descobri que o Arquivo não está morto, mas está sendo morto. Criado a cerca de trinta anos, atualmente o arquivo conta com três funcionários de carreira, dois comissionados e um exército de cupins ameaçando as paredes rachadas e o piso carente de maiores cuidados. Embora a atual administração tenha posto um olho no arquivo, cuidou da pintura externa e encontrou um funcionário da zeladoria para limpar o jardim ( o que estava sendo feito por funcionários historiadores/arquivistas) não atentou que é necessário fazer concurso para suprir os funcionários que estão em véspera de aposentadoria pois, eles estão desejosos de transmitir aos novos funcionários as informações necessárias para que a população olindense continue a receber os benefícios que um arquivo produz.

A primeira cidade brasileira a receber o título de Patrimônio Mundial, de Patrimônio Cultural, cidade reconhecida pela nação e pela ONU através da Organização das Nações Unidas para a Ciência, Educação e Cultura não pode matar por afixia e desnutrição o Arquivo Público Municipal Antonino Guimarães.

Severino Vicente da Silva – Biu Vicente, é Professor Associado do Departamento de História da UFPE

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