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Aula do dia 20 de novembro: Iluminismo e o dia da Consciência Negra:

O assunto da aula foi Iluminismo, então tomei alguns verbetes do Dicionário Filosófico – Igualdade, liberdade, Preconceito; juntei a bandeira da Revolução de 1817 e nos deleitamos a conversar. Que relação tem isso com a nossa vida e o que o Iluminismo importa para nós, foi o que rolou.
Quando faço esse tipo de aula noto que são poucos os alunos que expressam seus pensamentos. A sala lhes oprime, ou talvez seja eu. Mas o diálogo saiu e à medida que a aula fluía várias lembranças vieram-me, especialmente quando eu disse que esses temas estavam ligados ao que comemoramos, ou devemos refletir em um dia como o de hoje. E então veio a pergunta: que dia é hoje, saído de maneira tão verdadeira, em uma turma que está vencendo 50% do Curso de Licenciatura em História. Olhei para a turma e esperei a resposta que veio tímida e envergonhada: Dia da Consciência Negra.

Aprendi e repito sempre nas aulas que um historiador, aquele que deseja ser historiador deve ler, diariamente o jornal do dia, pois eles nos dizem os problemas do presente, o que justifica a pesquisa no passado para entender como o presente que vivemos foi construído. A pergunta da aluna me fez indagar, internamente: está a terminar o curso de história, já fez todas as disciplinas de História do Brasil; fez o ensino médio e como não sabem o que o dia da Consciência Negra! Porque foi criado tal dia e qual o seu objetivo, tudo isso estava fora da preocupação e conhecimento daqueles estudantes. Parece que certos momentos e temas são coisas de militantes, não de cidadãos. Mas também não sabiam que ontem, dia 19 de novembro foi o Dia da Bandeira Nacional.

Então lembrei que em 1988, quando a professora Edla Soares estava Secretária de Educação do Recife e eu Diretor de Projetos Especiais da mesma secretaria, fizemos ocorrer uma passeata dos estudantes da rede municipal, no dia 13 de maio, para discutir a questão dos negros no Brasil. Naquele ano, Plínio Victor e eu pensamos na possibilidade de criar um memorial Zumbi dos Palmares na Praça do Carmo. Não tem o memorial, mas lá está o busto representativo d Zumbi dos Palmares. E então era a época que começava a nascer e fortalecer o movimento negro em busca da afirmação, o que passava até pela relativização do ato da Princesa Izabel, não da desqualificação. A União dos Dirigentes de Educação Municipal promoveu debate envolvendo professores de 14 redes municipais do Estado – dois dias de estudos no Seminário Cristo Rei, em Camaragibe. E isso muito antes da lei que regulamenta a discussão da cultura afro-brasileira na escola. E meus alunos na universidade, em 2017, ficam surpresos que exista esse dia da Consciência Negra.

Agora reflito que esse desconhecimento é sinal que devemos vez por outra tocar nesse assunto, inclusive para lembrar que somos mestiços, de negros, brancos e ameríndios. Devemos nos esforçar um pouco mais para nos conhecermos, pois se não nos encararmos de verdade, jamais seremos algo além da sombra de um povo que poderia ter sido. Não somos apenas a herança europeia, como não somos apenas a herança africana. Somos as duas, sendo que as tradições europeias tornaram-se fortes, quase única, à medida que procurou impedir a continuidade das tradições africanas e, também destruíram, no puderam, a tradição dos povos que aqui encontraram. O dia 20 de Novembro é para repensar todas essas particularidades que, parece, nossos currículos – os visíveis e os invisíveis – parecem desejar esconder.

Como nos lembrou o professor Marcus Carvalho, na conversa realizada no Projeto Olinda 1817 – 2017, parece que anda estamos longe de realizarmos o projeto dos iluministas dos séculos XVII e XVIII.

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