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Uma história que descubra os brasileiros.

Uma história que descubra os brasileiros.
Temos graves problemas no ensino, na formação da ideia do que é a nação brasileira. Formamos a ideia da nação desde os primeiros anos da vida, mesmo antes da escola vir a ser parte da existência. Mas para termos conhecimento da nação precisamos saber de sua história. É assim com a família que se torna nossa à medida que as pessoas aparecem em nossa existência. Se não conhecemos os ‘primos’ eles jamais farão parte de nossa história, assim como os parentes que se tornaram distante fisicamente vão, distanciando-se com tempo, de modo a não serem nem mais uma sombra de fotografia na memória. É necessário que se apresente a história do país, da nação se desejamos que a nação exista. Mas o país, a nação, é formado por pessoas.

Fui apresentado ao Brasil de várias maneiras. A lembrança mais antiga, quase apagada, é um desfile na Semana da Pátria que minha tia Djanira, que era professora, fazia no meio do canavial, alí no Engenho Eixo, que ficava na margem do Rio Capibaribe, perto da nossa casa. Depois viemos morar na cidade do Recife, no lugar chamado Nova Descoberta. Era metade da década de 1950. Sou um desses severinos que desceram o Cão sem Pluma. No Ateneu São Tomaz de Aquino, escola mantida por Seu João Batista. Tive ali a apresentação do Brasil, os nomes das pessoas que faziam parte da História do Brasil: Pedro Álvares Cabral, Frei Henrique, Duarte Coelho, Tomé de Souza, Mém de Sá, Anchieta, Felipe dos Santos, Tiradentes, Dom Pedro I, Pedro II, Marechal Deodoro, Rui Barbosa, Getúlio Vargas. Essa foi o primeiro Brasil que conheci, e foi confirmado nas cédulas, no dinheiro que acrescentava outros nomes e ensinavam a história do Brasil mesmo àqueles que não iam à escola. Nas cédulas, além de alguns daqueles que aprendi na escola, havia Duque de Caxias, dom João VI, Almirante Barroso, Princesa Isabel, Santos Dumont. Mesma quando o Cruzeiro mudou de nome (cruzeiro novo), ele continuava a ensinar história, pois aparecia Machado de Assis, Juscelino, Vilalobos, Barão do rio Branco, Mário de Andrade, Câmara Cascudo e outros. Claro que a inflação o período auxiliava a criar cédulas novas com frequência. Depois com o controle da inflação desapareceram os personagens da história e entraram os animais em extinção. Coisas de uma nação que estaria entrando nesse processo.
Bem, um dos problemas que enfrentamos em sala de aula para apresentar uma nova história do Brasil é que sempre tivemos os mesmos heróis nacionais, e, quando os aposentamos, falamos de uma pátria que parece não ter tido gente. Os novos métodos preferem falar de processos e conflitos nos quais as pessoas são secundárias. Começamos a contar, nas salas de aulas, história sem heróis. E começamos a criar novos heróis, novas etnias, mas tudo dentro de um processo que apenas esmaga os homens. Recusamos os heróis tradicionais, aquelas pessoas que fizeram o Brasil; vivemos de achar defeitos nelas, pois só queremos heróis imaculados, esses seres que estão mais próximos dos espaços celestiais que nas vizinhanças humanas.

Examinei um livro didático dedicado aos estudantes da quinta série, era sobre Pernambuco, nele não encontrei o nome de nenhuma mulher nos quinhentos anos de história.(A MULHER NO LIVRO DIDÁTICO DA QUINTA SÉRIE, publicado no livro Marcadas a Ferro). As crianças de Pernambuco começam a aprender que não há mulheres no seu Estado. Quando estudei nessa mesma faixa de idade, aprendi sobre as Mulheres de Tejucupapo, mas elas deixaram de ser assunto escolar. Estuda-se tanto processos e teorias nos cursos de História que o professor vai para o ensino fundamental apenas com ideias. Muito raramente estudamos alguém e, definitivamente, é quase impossível ouvir nomes populares nesses cursos, exceção feita a Antonio Mendes Maciel, o Conselheiro; Antonio Virgulino, o Lampião. São exceções. O povo brasileiro é exceção nos cursos de História. Estudam-se mulheres, trabalhadores, negros, etc., estudam-se processos, conceitos.

Nestes últimos anos voltaram a aparecer biografias, a princípio de movimentos sociais (eu escrevi duas: Maracatu Estrela de Ouro de Aliança, a saga de uma tradição, e Pretinhas do Congo, uma nação africana na Jurema da mata Norte) e agora de pessoas. São produções que irão enriquecer o vocabulário dos professores. Quero citar o livro de Jorge Caldeira: 101 BRASILEIROS QUE FIZERAM HISTÓRIA, publicado em 2016 pela editora Estação Brasil. Ele começa com Afonso Ribeiro, o primeiro português a por os pés em terra brasileira, uma biografia de uma página- o mesmo para cada pessoa (Caetano Veloso, Jerônimo de Albuquerque, Brites de Albuquerque, Fernanda Moontenegr), alguns recebem meia página (Felipe Camarão, André Vidal de Negreiros, Leopoldina), poucos recebem mais que uma página (Pedro II, Rui Barbosa, Tarsila do Amaral, Getúlio Vargas). Convido os professores a comprarem esse pequeno dicionário de brasileiros que importam para a formação do povo brasileiro e do Brasil.

Nesta época que estamos em procura do futuro, é necessário olhar para o passado e verificar que há outra história além daquela que a elite imperial, reunida no IHGB, definiu a ser contada, definição mantida pelas universidades.

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