Arquivos

Fazendo a história na hora e no lugar certos

Tem me acompanhado uma questão ao logo do tempo: a tentativa constante de expulsar alguns da história e, isso é tão corriqueiro, é tão comum, que nem nos damos conta. Carlos Drumond de Andrade escreveu famoso poema a respeito de uma pedra que apareceu em seu caminho e, ele cuida de, não tanto colocar a pedra como um acidente ou incidente, coisa de somenos importância em sua vida, mas dá-lhe um protagonismo especial, de maneira que sua vida muda após o encontro daquela ou com aquela pedra. Acontecimento singular, mas que transcendeu o momento do inesperado encontro. Não mais ele, a pedra é que indica o caminho, que impõe o diálogo com o mundo. Pois, o que intriga a mim é o esforço que alguns fazem para, não retirar a pedra inesperadamente encontrada, mas retirar da trajetória histórica de algumas pessoas, alguns protagonistas que fazem parte da história, que fizeram a história, que sem a sua presença a vida teria sido encaminhada de modo e por caminhos diferentes. Contudo, nega-se esse protagonismo, procura-se evitar que ele apareça, como se ele jamais houvesse existido. Afasta-se como se um entulho fosse. Faz o outro de entrulho histórico.

Há expressões que são usadas para isso. E, de tão usadas nem percebemos que as usamos para afastar certos acontecimentos, algum protagonista inexplicável na lógica que engendramos para a narrativa que usamos com o objetivo de ressaltar o que nos parece tão verdadeiro. Esse inexplicável, ou explicável por outra lógica, deve ser afastado e, se faz isso usando a fórmula: a pessoa estava no lugar errado e na hora errada. Pode até ser a pessoa certa – pois que se reconhece nela alguma virtude – mas a sua presença incomoda, uma vez que ela não deveria estar ali, naquele lugar próprio para aqueles que escolherem ser os donos e senhores da trama histórica. E se diz que ela estava no lugar errado, embora a sua presença tenha criado uma situação que facilitou a continuação da trama, que talvez viesse a ter uma continuação, mas com outros sucessos, sem a sua presença.

Uma testemunha, inesperada, na cena do crime, é alguém no lugar e hora errada, para o criminoso, mas é uma pessoa no lugar e horas certas na visão da vítima que sofria a ação criminosa. Definir qual a importância a ser dada a essa pessoa é a escolha de quem recolheu e conta a história. Essa escolha talvez seja a Escolha de Sofia: qual história deve ser lembrada e qual protagonismo deve aparecer é o dilema de todo aquele que conta uma história.

Ao dizer que alguém está no lugar e hora erradas é, de chofre, chamar de idiota aquele que está participando de um momento histórico sem ter conhecimento do todo; é negar a validade de conhecimento que ele tem, e que construiu até chegar àquele momento, nas condições que lhe foram dadas. Talvez, o uso dessa expressão, seja uma forma de impedir que alguém o procure para que ele diga detalhes que só quem esteve presente saiba. Assim deve-se desqualifica-lo rapidamente: assim agem aqueles que constroem o protagonismo, seu ou do seu grupo. Em seu benefício, em benefício de seu grupo, retiram da história quem faz e fez a história.

Assim é que aprendemos “o povo assistiu bestificado a proclamação da República!”, diz aquele que, de alguma maneira, ajudou a bestificar o povo. Ele poderia ter dito: “Fizemos o povo de besta na proclamação da República, não o chamamos, nós o desejamos, como uma besta que observa de longe, não desejamos a sua participação.” Mas se isso fosse dito assim, o protagonismo por ele exercido seria o de criador de injustiças, prefere colocar o povo como protagonista de sua miséria e ausência, e não vítima do poder que foi exercido contra ele.

Há pedras, pessoas, que parece terem estado na hora e lugar errados por não comungar com os valores políticos partidários de partidos ou instituições, mas apenas estavam no lugar e na hora certa ao lado do amigo. Mas a amizade quebra a lógica da luta de classes, do poder ou do simbolismo do poder. Na trilha do poder não se reconhece a amizade e o amor só pela causa do homem; o amor à essa causa política retira do amigo o protagonismo. Assim fazem as instituições que só reconhecem o outro quando é para afirmar o seu protagonismo. Foi o que fez um santo homem dizer: “amigo dos pobres e meu amigo”. Reconhece o outro enquanto degrau para seu protagonismo parasitário, apropriando-se da vida do outro. Nega a história do outro, aquele incompetente que estava no lugar errado, na hora errada. A sua presença incômoda precisa sair e, se não se pode evitar, que apareça como uma besta e não como um ser humano construtor da história. A sua e a de seu povo.

Curta e compartilhe:

Comments are closed.