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Jerimum com leite e minha Pátria

Faz cinco anos da morte de minha mãe, e na manhã de 5 de setembro lembrei do jerimum com leite e açúcar que, algumas manhãs ela nos servia como primeira refeição do dia. Veio a lembrança enquanto eu cortava e descascava o São Tomé para a minha primeira refeição. Mamãe não entendia de política, mas sabia o que era bom para a saúde de seus filhos e nos ensinou o que é ser uma pessoa humana, alguém que, embora sabendo-se imperfeita e tendente ao egoísmo, é capaz de superar esses pequenos e grandes limites. Ela nos ensinou que há o bem e o mal, e que devemos optar pelo bem. E o bem é que queremos para nós e o que queremos para nós só é bem mesmo, se for bom para os outros. É uma senda para a vida.

Nos últimos dias temos aprendido que a geração que chegou ao poder no início deste século, embora convencesse a muitos com seu discurso de desprendimento e de doação aos pobres, de compromisso com a Pátria Mãe gentil brasileira, garantindo que iria mudar o Brasil, não cumpriu a promessa. Fez reformas cosméticas, exteriores, “dourando a pílula”, mas aprofundou a prática de apropriar-se das riquezas produzidas pelo povo brasileiro.

Agora, quando o século completa 17 anos e o Brasil 195, notamos que a pouca atenção que é dada a esta data. Na segunda metade do século XX, o Brasil viveu uma ditadura, essa maneira de governar que nega ao povo o direito de sua fala, o direito de debater e participar da vida política; foi um período em que militares e civis governaram, conjuminadamente, sem considerar o desejo dos brasileiros, cuidando apenas de seus interesses. Quando conseguimos afastar os ditadores, talvez tenhamos cometido o erro de confundir a ditadura com o Brasil e, parece que, como se conta em uma história, “jogou-se a água suja com o menino na bacia”. O segundo ano do século XXI seria o início de um novo tempo, um tempo como “nunca antes houve neste país”.

Por razões múltiplas, quisemos e fizemos o esquecimento do Brasil. Começamos achar ridículo considerar-se brasileiro, amar a pátria passou a ser sinônimo de gente do passado, ou de “direita”, enquanto ser gente atual era amar a “pátria grande”. Perdemos o amor da pátria. Acreditamos, de verdade, no que disse um poeta um poeta durante a ditadura: “melhor seria ser filho da outra”. E cuidamos, como fizeram os portugueses à Felipe dos Santos e Joaqim José da Silva Xavier, Manoel Justino, João de Deus et alli, no tempo em que dominavam esse pedaço da América, esquartejamos nossa realidade e passamos a conversar e refletir a partir dos pedaços, confundindo-os com o todo. De tanto não querer nosso passado, Imperial e Republicano, passamos a nos ver como se vê a potência a que se diz recusar. E começamos a apartar os pedaços e, com a justificativa de que estávamos buscando a identidade, libertar os inconscientemente dominados, fomos largando o que nos unia, aprofundando o fosso econômico e social, como nos mostram os bairros/cidades afastados, esses condomínios de luxo, bem como os muros altos das cidades, externação da distopia em que nos metemos seguindo quem prometia a utopia do paraíso. Perdemos a identidade que tínhamos.

Depois que tanto nos roubaram aliando-se aos que sempre nos roubaram (parece que com mais parcimônia), ajudaram a roubar a riqueza que produzimos. E depois que nos ensinaram a não amar a Pátria, depois de nos ensinarem a não respeitar nossas tradições, transformando-as em mercadorias e razões de espetáculos, será que só nos resta “ser filho da outra”?

Embora a mim tenha mais sabor de liberdade celebrar o 5 de outubro de 1821, neste Sete de Setembro, quando o Brasil completa 195 anos de existência, vou cantar o verso que aprendi antes dos dez anos, no tempo em que comer jerimum machucado com leite e açúcar fazia parte da refeição matinal de muitos brasileiros da área rural: Houve mãos mais poderosas, zombou deles o Brasil.

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