Arquivos

algumas lembranças da Fábrica da Macaxeira e da Igreja de Nossa Mãe de Deus

Hoje completa 50 anos da criação da Paróquia de Nossa Senhora Rainha do Mundo, localizada na Macaxeira. Tinha eu sete anos de idade. Foi no mesmo período da criação da Paróquia de Nossa Senhora de Lourdes de Nova Descoberta. As duas novas paróquias eram desmembramento da Paróquia de São Sebastião do Vasco da Gama que por sua vez já havia sido desmembrada da Paróquia do Bom Jesus do Arraial, de Casa Amarela.

O metropolita era Dom Antônio de Almeida Moraes Junior, bispo conservador que pôs sua assinatura na ata da criação da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil. Dom Antônio era conservador, autor de vários artigos na Revista Eclesiástica Brasileira – REB, todos seguindo a linha da Quanta Cura e do Sylabus de Pio IX. Mas Dom Antônio percebeu o crescimento populacional e geográfico da cidade e, cuidou de estabelecer a presença da Igreja naquela região norte do Recife, que vinha num crescendo desde os anos quarenta. E esse crescimento estava ligado a dois fenômenos: 1. a descida da população desde a Mata Norte, pois as usinas levaram ao fechamento dos engenhos e ao processo de substituição dos sítios por canaviais sempre mais sedentos de terra; 2. a transformação desses antigos cortadores de cana moradores de engenhos em operários nas fábricas têxteis, especialmente da Fábrica da Macaxeira. O crescimento populacional, é incrementada nos anos quarenta e cinquenta e levou à ocupação dos morros; essa população operária chamava atenção pela situação precária que vivia, sendo que os operários das fábricas de tecidos eram os que tinham melhor padrão de vida, no que pese a constante renovação da mão de obra nas unidades fabris. E o Arcebispo preocupava-se em não perder suas ovelhas para os sindicatos que saíram em defesa dos operários. Dom Antônio percebeu que era necessário aproximar-se e dar um apoio maior aos que formavam a Juventude Operária Católica – JOC, e era ativos cristãos no meio operário, bastante disputado também pelos partidos, especialmente o Partido Trabalhista Brasileiro – PTB e o Partido Comunista do Brasil – PCB.

A indústria têxtil de Pernambuco foi instalada em momento de forte presença da Igreja Católica na sociedade, ainda que estivesse sendo vivenciado o processo de secularização, cujo emblema mais explícito é a separação republicana da Igreja com o Estado. Os industriais eram católicos e pretenderam seguir os ensinamentos da encíclica Rerum Navarum, e criaram vilas operárias, com atendimento religioso, educacional e social para os seus operários. Assim, além da igreja e da casa paroquial, as fábricas ofereciam atendimento à saúde, centro de lazer, com cinema e salão de festas para os operários, quase sempre conhecidos como recreios. Evidentemente os industriais também forneciam as instalações para a delegacia de polícia.

Esse fenômeno pode ser visto no Bairro da Torre, em Camaragibe, na cidade de Goiana, ainda agora depois que as fábricas fecharam as suas portas por não terem tido a audácia de renovarem-se parra acompanhar o processo nacional, ou, por os sucessores de seus fundadores terem optado por acompanhar o processo de fortalecimento do capitalismo centralizado na região Sudeste do Brasil, assumindo ações nos setores de serviço, especialmente a hotelaria. Os operários foram abandonados e, simultaneamente os bairros incharam com o capitalismo e suas sequelas se estabeleceram com a nova ordem ou desordem, com a ausência do Estado que, quando chega vem com um atraso irremediável.

Nesta manhã, uma aluna de jornalismo da UNICAP fez-me perguntas sobre a fábrica, lembrando-me do tempo em que saía de Nova Descoberta para, atravessando a mata de eucalipto às seis horas da manhã, apanhar o ônibus elétrico que me levava até a Encruzilhada, onde terminei o curso ginasial. Mas também lembrei que, nas festas de Natal, ia com meus irmãos e amigos para a frente da Igreja de Nossa Senhora Mãe de Deus, brincar no parque e assistir a apresentação do Pastoril. Ao longo do ano, na venda de papai, vendia fiado a muitos operários. Com fechamento da fábrica, aos poucos o comércio de papai também faliu, impulsionado pela chegada dos modernos supermercados.

Curta e compartilhe:

Comments are closed.