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Afogado em números e viagens

Então chego em casa após duas horas de palestras para senhoras donas de casa, algumas mulheres comerciantes, jovens estudantes que estão no final do ensino médio, alguns universitários, alguns agentes de turismo, aposentados e aposentadas, e gente que acabara de descer do ônibus e entrou na Igreja de São João dos Militares, na periferia do sítio histórico de Olinda, com o objetivo de ouvir e debater o Cotidiano em Olinda no século XIX e início do século XX. O padre que cedeu o espaço para a palestra ficou surpreso com o número de pessoas que atenderam ao convite que ele fez na missa do domingo. Nenhuma autoridade, apenas uma representação da periferia Após a palestra várias pessoas fizeram comentários e uma ofereceu a sua coleção de fotografias para que sejam escaneadas. Coração alegre.

E ao chegar em casa, leio que um professor titular da Universidade Federal de Pernambuco, em entrevista a jornal da cidade do Recife, propõe o fim do ensino da história e da geografia para que os alunos tenham mais tempo para aprender a pagar boletos,; a vida, segundo o doutor, é a arte de pagar boletos. O doutor, professor emérito do Centro de Informática da UFPE não quer que se perca tempo estudando história, refletindo sobre os modos de apropriação e usufruto da natureza, pois, para o ilustre matemático, o importante é saber como fazer códigos de barra e os pagar prazerosamente nas agências dos bancos que financiam suas viagens ao Japão e à Austrália, povos que pararam de ensinar história e geografia aos seus jovens, aquele em algumas universidades e, esta, no Ensino Fundamental 2. Sílvio Meira, professor emérito da UFPE, e associado da Fundação Getúlio Vargas, é capaz de entender o mundo sem essa tentativa de compreender as razões que levaram as sociedades a dominar e escravizar a natureza. Compreender esse processo pode levar os humanos a pensar, novamente, que o caminho poderia ser outro, que o salto quântico pode ser um salto não quantitativo dominante, mas de outra qualidade, e não a continuação de repetir sempre os mesmos passos na mesma direção. Na natureza não há retas e, quando se impõe uma regra (régua) na sociedade, o desastre é garantido. Historicamente os japoneses já sabem disso, e, talvez por isso a história deva de ser dispensada? A história não se ensina, conta-se enquanto se vive. Evita-se o estudo da história pelo interesse de esconder a terrível fragilidade que é o ser humano, histórico e sem a impessoalidade de um código de barras.

Não há como negar que vivemos envoltos em uma trama que parece desmerecer o ser humano que criou esse mundo de máquinas que comandam, já agora a existência. Mas será que devemos também entregar a essência que somos? Historiador, Harari nos mostra o dilema que estamos a viver desde a mais recente das revoluções do conhecimento, mas ele entende que a sociedade deve debater suas possibilidades. E como fazer esse debate tão sério abandonando a experiência (história) e negando o mundo que nos envolve e que recriamos (geografia)?

Lamentável que há quem julgue que usar roupas berrantes é ser o suprassumo da inteligência. O professor emérito deveria ler (não se reler o que não se leu) “O que penso do mundo”, de um cientista apaixonado pela história (não pela repetição do algoritmo), Albert Einstein. Ele pôs a língua para fora não porque era inteligente, mas porque estava irritado pelas inúmeras repetições dos seus entrevistadores.

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