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Fernandão e Edwaldo Gomes – amigos

Nesta semana, em um dia, a vida mostrou-se em sua face mais esperada e mais surpreendente para mim: a morte. Ela já apresentou-sê-me de muitas maneiras, desde que alcancei o que chamam – chamavam – de Idade da Razão. Um pouco antes veio a morte de tia Djanira, mas logo depois veio a morte de Vó Alexandrina. Veio um tempo de descanso dessas visitas, embora tenha ficado na memória a ambientação da morte de Pio XI e, com mais clareza as mortes de John Kennedy e João XXIII. Em uma visita inesperada, levou um sobrinho, Eduardo, quando ainda não fizera cinco anos de vida. Fui aprendendo que a morte vem no seu tempo, não no nosso desejo. Depois o luto pessoal veio na morte de meu pai. Depois ela apareceu buscando minha primeira esposa, Tereza, de meu amigo Sebastião Tavares – Tão, meu irmão José e minha mãe Maria.

Mas esta semana, veio em dose dupla. Duas pessoas que participaram de minha vida e que permanecem sempre que reflito sobre os passos que tenho dado, desde os 10 anos de idade. Foi nessa idade que conheci o padre Edwaldo Gomes, no dia em que pisei no Seminário Menor Nossa Senhora da Conceição, na Várzea. Meus pais, a meu pedido, me entregaram a ele, que então era vice-reitor daquela casa de formação. Desde então, outra pessoa além de meu pai chamava-me de Biuzinho. Meu amigo Eutrópio Édipo ainda me chama dessa maneira. Nunca crescemos para certas pessoas.

Vivi três anos no Seminário da Várzea e tive Edwaldo Gomes como meu professor de língua Portuguesa, muito preocupado com o enriquecimento de nosso vocabulário e o uso correto das flexões verbais. Em várias ocasiões fui chamado à sua sala para uma reprimenda, pois ele cuidava da disciplina geral dos alunos. No início de 1964 não retornei ao Seminário e veio a Redentora, como a chamava Stanislaw Ponte Preta.

Pouco antes de completar dezenove anos principiei a exercer profissionalmente o magistério. Então conheci Fernandão, professor de língua portuguesa em cursinhos preparatórios para o vestibular. Sempre o chamei de Fernandão pois ele era enorme e eu sempre fui pequeno. Eram tempos difíceis, e terminei sequestrado com outro amigo, José Nivaldo Junior, também professor de cursinho, à época. Fernandão seguiu os estudos, andou no mundo físico e amava com profundidade os escritores que amaram profundamente os homens e fizeram deles a fonte de suas vidas e escrita. Logo depois que os sequestradores me liberaram reencontrei padre Edwaldo na celebração Eucarística no Morro da Conceição. Disse-me que tinha orgulho de ter sido meu professor, no momento da Eucaristia. Eu disse que jamais o esqueci e sempre que nos encontrávamos vivíamos essas carícias da amizade. Padre Edwaldo foi se tornando referência no Recife desde que assumiu como vigário a Paróquia de Casa Forte, seja por sua postura diante o estado autoritário, seja por seu posicionamento respeitoso, coerente, em relação ao arcebispo que substituiu Dom Hélder Câmara. ma das últimas vezes que estive com ele foi no stúdio de uma emissora de Rádio para conversar sobre o papa Francisco. Depois foi em uma missa lembrando Dom Hélder.

Enquanto isso Fernandão que conheceu o padre Daniel Lima bem mais que eu, brilhava com simplicidade nas aulas de literatura, formando gerações. Após 1996 voltamos a trabalhar na mesma instituição, agora UFPE. Trabalhávamos em prédios vizinhos, mas quase não nos víamos. Os corredores foram os locais de nossos encontros rápidos. Mais duradouro foi a noite em que, Flávio Brayner, ele e eu, quase varamos a noite em um bar/restaurante próximo à Praça do Carmo, em um carnaval com piano, canções e bolerões.

Acompanhei Fernando Mota em seus artigos no facebook. Conversávamos e chegamos a marcar almoço em casa de uma amiga comum, Sylvana Brandão. Disse que desejava ouvir mais sobre o sequestro de 1973, queria conversar sobre os temas atuais que eram de nossa preocupação comum. Entretanto ele não foi. Mas a conversa continuou, especialmente quando descobrimos nossa amizade com Montaigne que, disse, era seu companheiro de travesseiro. Em uma de suas últimas conversas no Facebook disse que havia encontrado a morte e sentiu-se calmo. Poucos dias depois, seguiu em sua companhia.

Fernandão e Edwaldo Gomes foram colhidos na mesma safra. Dois homens importantes em minha formação, no caráter e na ilustração.

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