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Amizades em tempos de superfície

Em tempos mais juvenis, tempo de aprendizados quase permanentes, vários poemas ficaram em minha mente e deles me aproximo, vez em quando, socorrendo-me nas adversidades de agora. Uma delas, que sempre provoca uma cachoeira de emoções quando a canto, diz assim: “se uma boa amizade você tem, louve a Deus, pois amizade é um bem… (…) uma boa amizade é mais forte que a morte (…) ser amigo é fazer ao amigo todo o bem, como é bom saber amar alguém!”.
Tenho bons amigos daquele período. Alguns já morreram, mas converso com eles sempre; outros os vejo algumas vezes no ano; outros não os vejo faz duas dezenas de anos ou mais, lembro dos seus abraços e conselhos. Tem aqueles que voltamos a conversar usando as redes sociais. Nos lemos sempre, enviamos mensagens, escrevemos pequenas frases que mostram a alegria do reencontro, ainda que virtual.

Talvez existam diversos níveis de amizade, mas penso que eles possuem uma base comum que é a afeição e a confiança mútua, embora ainda se possa considerar amigo um daqueles que lesou a amizade. Laços de amizade são muito fortes. Ficamos sendo amigos enquanto cultivarmos os bons momentos construídos juntos e, simultaneamente, lamentamos não poder ficar próximos mais uma vez. Como cachorros sem cura, ficamos lambendo o passado. O que é muito triste, mas confortante ao lembrar dos risos e lágrimas que tivemos juntos.

As redes sociais nos permitiram ampliar nossos laços de amizade. Isso implicou em uma modificação do sentido da palavra AMIZADE e suas derivadas. Antes, só podíamos fazer uma amizade após vários contatos, experiências. Dizia-se que era necessário comer muito sal em sua companhia. O conhecimento viria depois de um quilo. Hoje mudou um pouco, talvez pela quantidade de sal nas batatinhas que mastigamos enquanto teclamos.

Ao entrarmos na rede social virtual buscamos pessoas com as quais tivemos alguma convivência e, logo a rede cresce com pessoas que ouviram falar de nós, pessoas que visitamos em sua linha de tempo, ou que nos visitaram. Nos apresentamos já solicitando e oferecendo amizade. Amigo fica aquele que se reconhece um pouquinho conosco. Não sabemos bem onde mora, pois a geografia dessas amizades tem outra física. Nossos desconhecidos amigos podem morar na Espanha ou no Vietnan, ou mesmo na rua, prédio ou casa onde moramos. Não faz diferença pois, agora a distância não existe para os amigos. Na verdade a distância nunca fez diferença para a criação e manutenção da amizade. Até o final do século XX havia a ansiedade por carteiros e cartas, nelas vinham os amigos. Eram poucos, mas vinham em letras muitas e muitas páginas. E as relíamos duas, três vezes e então respondíamos, dedicando tempo para refletir e escrever outras tantas páginas e letras. Caminhar até a agência do correio era como ir à casa de alguém que nos esperava. Hoje, com mais de mil ‘amigos’ já não interessam as cartas. Algumas dessas pequenas mensagens de hoje podem trazer desaforos porque o amigo não pensa do mesmo modo politicamente. E vem o destratamento: chama o amigo, maneira enviesada, de “coxinha” ou “mortadela”, diz que está desalentado com ele e o chama de traidor. Como a rede é aberta como uma praça, alguns desses nem são amigos, eles são conhecidos de velhas épocas, não se alistaram no exército de amigos, não convidou nem foi convidado para ser parte do seu grupo de amizade, mas, espreita, e quando se escreve algo que não lhe agrada, aparece cobrando a amizade antiga, aquela que ele guardou fossificada na memória.

Mas essa nova geografia também nos torna quase íntimo de pessoas que jamais vimos. As conhecemos através de outros que não conhecíamos. Descobrimos afinidades inimagináveis que nos foram apresentadas indiretamente por amigos mais antigos. Gente que lembra aquele filme: nunca vi sempre te amei. A rede é um universo tão interessante que, vez por outra, esquecemos os amigos com os quais tratamos mais diretamente e amiúde no mundo físico. Estes parecem ficar mais distantes a cada dia. Além disso, não posso descartar a conversa com um simples toque em uma tecla, nem sofrer seu olhar de desencanto pelo encerramento precoce de uma conversa.
Na verdade, tenho amigos físicos que são simultaneamente amigos virtuais, aos poucos nossas amizades esfriam pois não mais conseguimos completar nenhuma conversa, uma vez que nos desacostumamos a ler cartas, viciamos em notas, pois os bilhetes já nos cansam e tomam tempo das outras amizades. Vamos ficando superficiais em nossas amizades e elas já não deixam saudades quando terminam.

Uma vez, um desses amigos da época das cartas, escreveu dizendo que não estava explicando uma decisão sua pois os inimigos jamais aceitariam qualquer explicação, mas os amigos prescindem de explicação. A amizade, como o amor explicita-se em atos, as palavras são floreios mais insuficientes que o silêncio. Talvez seja por isso que muitos se sintam obrigados a explicar por que estão deletando alguns ‘amigos’ de suas relações, em postagens que o amigo que foi deletado jamais não lerá. Mas não era uma amizade, era um conhecido, um encontrão na plataforma da dessa imensa estação de encontros.

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