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O que somos está em torno da fogueira

De maneira geral a vida é uma sucessão de acontecimentos esperados: sol vem após a noite; plantas e animais nascem crescem e, depois de algum tempo morrem e a natureza corre em seu fluxo. Adequar-se a esse processo, dizem alguns, é sabedoria. E a Sabedoria esteve no primeiro momento da criação, diz famoso livro sagrado, para alguns. Vez por outra acontece um inesperado: um tufão, uma enchente, um vulcão que explode, um deslizamento de morro, algum terremoto, um raio; qualquer desses eventos dos elementares da vida e, algumas vidas são tolhidas, animais são pegos de surpresas. Muitas mortes e, algum tempo depois, tudo volta à rotina natural, não há tristezas, alegrias ou lembranças na vida natural. Contudo eis que um animal, em algum momento passou a perguntar-se porque tais coisas acontecem, quais razões levaram o seu companheiro a não mais andar? E porque aquela fruta pode ser comida e propiciar prazer e aqueloutra provoca dor? Assim, do mundo natural floresce a cultura, que é a lembrança da alegria, da dor, do sofrimento, que provoca lágrima, mas lágrimas que nascem de outra dor, a dor alegre de descobrir que aquele que não mais aparecia aparece e faz sorrir. E então tem festa, tem conversa, tem noite de palavras que inventam danças, abraços e o tempo parece parar pois não se percebe seu curso até que o sol atinja as pupilas e seu calor diga, que voltou o tempo da fadiga.

As festas em torno de fogueiras são universais: o fogo, dominado, atrai para si as atenções dos corpos que ficam ao seu redor. Ele provoca as conversas e as lembranças são expostas, informações são trocadas e agradecimentos surgem em relação a algo que ocorreu. O começo do inverno em nosso país, contrapartida do começo do verão noutro espaço do globo, é visto com alegria e temor. As chuvas que sempre caem nesse período molestam as populações que molestaram os rios ao fazerem casas tão próxima das águas que, vez por outra, parecem lembrar o caminho que fazia em outros tempos. No meio do percurso anual, há que se festejar a vida passada, a passada que não foi vivida pelos que agora celebram, e essa vida recentemente passada. Nem sempre as pessoas, hoje, sabem que celebram o passado que não viveram.

Acender uma fogueira, hoje algo incorreto para os que perderam o gosto de festejar, é repetir um gesto que vem dos primeiros momentos da vida social; estar em volta de uma fogueira é celebrar o primeiro domínio sobre o fogo. Esse é um costume vem dos povos que primeiro viveram aqui onde vivemos hoje; assim como é uma lembrança de povos que viviam do outro lado do oceano que faziam grande fogueiras para celebrar as forças reprodutivas da natureza, e celebravam tal festa nas florestas que já não existem na Europa, que tanto as usou para construir navios para encontrar outras terras. Mas antes de se meterem nessa viagem ao desconhecido, as fogueiras passaram a ter outro sentido. Saídos do Oriente em direção ao então “centro” do mundo, depois de vencer e assimilar os deuses que protegiam o Império, os cristãos dirigiram-se para a Europa e conquistaram os seus deuses, assim os europeus (então chamados pelo genérico “bárbaros”)foram lentamente viver em cidades. E as fogueiras que eram acessas nas florestas passaram a ser acessas em vilas e cidades, em frente das casas ou das igrejas. E se até então louvavam a fertilidade, passaram a louvar na longa noite que anuncia o verão, o nascimento daquele que anuncia o nascimento que ocorrerá na longa noite do inverno. Quando os europeus em seus navios chegaram nas terras às quais chamamos de Brasil, mais propriamente na parte que chamamos Nordeste, trouxeram a fogueira de São João, que dominou sobre as fogueiras do Tupi E Tapuia. E os europeus trouxeram a cana que é a base do açúcar, também o coco, o cravo da índia, a canela, que vieram lá do Oriente mais distante; e trouxeram muitos africanos, que chegaram com suas tradições culinárias e com os deuses de suas crenças.

As festas que ocorrem no Nordeste, neste período do ano, carregam todo esse passado que somos. Há quem diga que somos uma grande feijoada, mas o arroz apenas fica perto do feijão, como a laranja que pode acompanhar, da mesma maneira que ocorre com os demais ingredientes que provocam o surgimento dessa maravilha capaz de colocar toda família e amigos em torno da mesa. Entretanto os elementos estão próximos, não se interpenetram, não formam algo de novo. Por outro lado, tomemos o que ocorre nas noite de São João, sempre nesse solstício que integra a festa ao centro de energia que provoca a vida no planeta; A Longa Noite exige fogueiras que louvem a vida, (na tradição luso-cristã-católica, informa o nascimento do menino João; e na tradição vinda das Áfricas, é o grande guerreiro Xangô, mais esquecido está Manitu); Durante o dia, as famílias sentam-se para descascar, limpar, ralar o milho, misturar esse caldo com o açúcar retirado das canas, carregado de suor e vida dos trabalhadores no canavial e nas máquinas; e no caldo que virá a ser canjica ou pamonha,se põe o leite feito do coco, e se põe um pouco de canela e alguns ainda põem o cravo. E como separar depois? Nada está justaposto, o conjunto do trabalho, ao final é uma unidade. E nós, brasileiros somos essa mistura única, resultado de muitas tradições de trabalho, de origens, de cultura, de religiões. E, claro, ainda tem o festejo que põe ao lado da sanfona, seja ela de oito ou cento e vinte baixos, as danças da Mazurca (origem polonesa), do Maxixe (origem africana), do Xaxado(pernambucana), do Xote (origem escocesa) do Baião (nordestina), e também a quadrilha que veio da corte francesa, mas foi recriada nos terreiros para celebrar casamentos impossíveis, forçados, arranjados pelos senhores das terras que nem sempre controlavam os desejos de suas filhas.
Assim, penso, se fez nosso povo, fizemo-nos. A despeito de tudo continuamos a nos fazer.

Mas não nos contam essa história, não contam as nossas histórias, contam como os ricos ficaram mais ricos, como parte dos moradores do Brasil não conseguem ver e sentir o Brasil. Alguns são até capazes de escrever livros sobre o Brasil, mas não conseguem entender porque temos saudades das “quadrilhas matutas” (assim chamadas por terem vindo das matas, da Zona da Mata que existe de norte a sul do Brasil), mesmo se ‘gostamos’ dessas quadrilhas estilizadas, cada vez mais feéricas, mais sapucaianeses, e menos de nossas ancestralidades. Para termos nosso “São João” de volta, temos que nos escutar mais.

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