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Europa – Brasil

Conversa rápida com amiga, atualmente em Londres, em treinamento para o doutorado em sua área de estudo e atuação. Não é esta a primeira vez que ela se dirige àquele continente, mas tem sido a mais duradoura, ultrapassando o período de trinta dias. Não estando como turista, tem a oportunidade de apreciar e refletir sobre o comportamento social, se não sobre as grandes instituições, mas sobre aquelas que formam o cotidiano e dão sustentação à vida. Observa como é fácil transportar-se sem medo nas ruas das cidades; percebe que as pessoas não carecem de policiamento para ocupar a cidade e receber dela o que procura. Todos parecem saber o que se espera delas e, efetivamente dão o que é esperado e recebem o que está previsto no contrato de vida social. Claro que não ela não está a viver no completo paraíso, entretanto, apesar das diferenças sociais, o convívio é agradável. Essa sensação de liberdade e de confiança nos demais membros da sociedade tem sido algo marcante para essa minha amiga.

Ao telefone disse-lhe que está ela em uma sociedade que assumiu os valores que construíram, em um processo longo e de constante negociação, exigindo de cada um que diga o que pensa e escute o que o outro diz; essa negociação que faz a democracia ser mais que um instante de votação e transferência de responsabilidade para um deputado. A honestidade que se espera de um parlamentar é a mesma que faz o cidadão comprar o bilhete para a passagem sem que um agente do Estado esteja por perto, qual um “cabo de usina”, verificando a honestidade do cidadão. Esse sentimento de pertença à sociedade foi construído coletivamente, como nos explicou Norbert Elias. E então, digo-lhe que em nossa sociedade o processo não ocorreu de maneira evolutiva, mas é filho de reciclagens permanentes, de atualizações históricas, como nos explicou Darcy Ribeiro (totalmente esquecido em nossos estudos), o que não permite que haja absorção de tais valores e práticas sociais, uma vez que eles foram criados em outras experiências históricas. No Brasil não criamos para nós uma democracia, uma sociedade,na qual os indivíduos não mantêm relações de responsabilidade por seus atos e respeito aos demais membros da sociedade, daí a necessidade da constante vigilância que o membro de nossa sociedade exige sobre ele mesmo pois, desenvolveu a ideia que, se ninguém estiver percebendo, pode-se burlar a lei em seu benefício, pouco importando o prejuízo que isso venha a causar à sociedade. Temos dificuldade de entender a sociedade como sendo nossa e de nossa responsabilidade.

Embora as crises sejam comuns em todas as sociedades, vivemos, no Brasil, uma grande crise política que é decorrente da forma como entendemos a nossa sociedade, decorrente da maneira como formamos a nossa sociedade. E, como somos irresponsáveis – talvez imputáveis, estamos sempre a construir a justificativa dessa irresponsabilidade como um mal de origem, um maléfico determinismo cultural que alimenta e é alimentado por nossa preguiça. Esquecemos, conscientemente, que “determinismo cultural” não existe, mas esse paradigma justifica os arranjos que fazemos, diariamente para não cumprimos as normas que criamos. Sabemos que é nosso desejo viver o ideal de tranquilidade na sociedade, mas não conseguimos, pois vivemos no medo de o outro não me respeite e esse medo parece que me proporciona o direito de a ninguém respeitar, e então nos surpreendemos quando experimentamos que isso é possível. Mas não queremos pagar o preço, o sacrifício para vivermos bem em sociedade.

E saímos cantando “vou lambuzando um selo se colar colou, foi desse jeito que alguém se arrumou, vou …” o que significa que aceitamos o mal como bem,

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