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Encruzilhada nas pesquisas e na vida

Leio, ouço e vejo vários professores universitários, alguns, como eu, já próximos da aposentadoria, continuando a trabalhar apesar de terem cumprido todos os protocolos para a jubilação de sua vida laboral, e estão quase desiludidos com alguns aspectos vividos na instituição que trabalham e amam tanto após anos de dedicação. É um sentimento nascido no confronto de algumas ideias, de ideologias. Talvez essa situação seja mais sentida na área das ditas Ciências Humanas. Essas ciências quase sempre surgiram para explicar e compreender o comportamento dos homens e mulheres. Houve um tempo de maior dedicação ao conhecimento, à análise do acontecimento social. Foi um tempo dedicado ao trabalho descritivo do mundo histórico cultural. Entretanto, no final da primeira metade do século XIX, surgiu a concepção de que, mais que conhecer a realidade, como vinham fazendo os filósofos, deve-se transformá-la. Desde então a questão que se põe é: transformá-la em qual direção, em qual sociedade, em quais tipos de relações.

À medida que se formavam e cresciam, as ciências ditas humanas e sociais passaram a agir separadamente da filosofia, passaram a dedicar-se ao método. Os homens e o que lhes aconteceriam de fato foram se tornando algo dispensável. Como disse Sartre, é uma Questão de Método. E foram tentados muitos, alguns criados em laboratórios mentais por alguns que associaram os projetos autoritários de Humanistas renascentistas com as ideias de mudanças abruptas, postas em prática pelos seguidores da Criança Terrível dos iluministas. Criou-se um clima indesejável de guerra permanente entre dois grupos que disputam todos os espaços: administração, bancas de concurso, bancas de seleção, gerências de Departamentos, Centros, Reitorias, etc. Mais recentemente essa disputa começou a atingir a sala de aula, os corredores; e então, o engajamento na luta pelo poder e sua democratização levou a uma união, quase total, com o movimento estudantil, pondo em risco a possibilidade de crítica. Quase submissão a La Chinoise. A autocrítica supõe autonomia. Não é à toa que nas recentes invasões, ou ocupações, de unidades da universidade, os professores que foram agredidos foram dispensados de qualquer solidariedade por parte de seus colegas ou colegiado da universidade. E se alguns manifestaram solidariedade, o fizeram de maneira pessoal, informal e privada. Parece ter havido um temor que soubessem desse seu pequeno deslize.

Sem possibilidade de uma crítica, como criar um conhecimento minimamente livre e científico. Ou só será científico aquele que se pareça com a experiência de Lysenko?

É necessário que, lendo o livro dos outros escrevamos os nossos, não copiemos o que lemos. As reflexões sociais que temos a partir das experiências europeias têm nos auxiliado, mas devemos tentar superar a prática de ficarmos apenas na realização de cursos de atualização de conhecimentos; já é tempo de voltarmo-nos para nossa história e procurar nos entender como fomos, somos e queremos ser. Nos divertimos ou nos envergonhamos conosco por sermos um povo mestiço (há algum que não seja?), mas é tempo de nos aprofundarmos nessa nossa mestiçagem que nos faz universais e para além da dicotomia entre Apolo e Dionísio. Para isso, é necessário dedicar mais horas de pesquisa e reflexão sobre o Brasil, esse desconhecido nas universidades.

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