Um secretário Armorial em Belém do São Francisco

Após quase um ano, um pouco mais de seis meses, voltei a ver Belém do São Francisco, cidade da qual me tornei cidadão por deferência e atenção de seus vereadores e moradores.Vim,mais uma vez para contribuir com as ações do Centro de Ensino Superior do Vale do São Francisco – CESVASF -, um dos mais antigos institutos de ensino superior do sertão pernambucano. Desta vez vim conversar um pouco sobre a questão da diversidade cultural do Brasil, da própria região, do Médio São Francisco. Para mim é sempre uma alegria olhar o casario dos anos vinte do século XX, e a evolução da arquitetura da cidade que acompanha o século.

Belém do São Francisco foi uma das cidades escolhidas pelo Secretário de Educação do Estado, Ariano Suassuna, para a sua exibição na “aula espetáculo”. Poucos professores podem ter a ousadia de Ariano em fazer de sua aula um espetáculo, embora todas as aulas, de qualquer professor, seja um espetáculo, sem o apoio da cenografia, da música, de uma trupe teatral.

Soube que mais de três mil pessoas ficaram sentadas, ao ar livre, em silêncio, aplauso, risos e respeito, ouvindo o meu professor, ouvindo as músicas armoriais, vendo o balet armorial. Pernambuco via Pernambuco; melhor, parte de Pernambuco via e ouvia parte Pernambuco. Ocorreu um respeito mútuo. Jamais o mestre Ariano havia realizado a sua aula ao ar livre, sob o estrelado céu do sertão, ainda que não tenha sido o sertão que ele conheceu nos limites de Pernambuco com a Paraíba. Mas eu soube que o Mestre ficou emocionado ao assistir a apresentação de um grupo teatral local: Núcleo Teatral Núbia Amando Granja, formado por jovens locais. Esses jovens apresentaram um texto, escrito por Núbia Granja, a quem chamamos de Nubinha, uma mulher maravilhosa, professora que dedica a sua vida à arte e à educação. Soube que o mestre Ariano pediu o texto. Todos os que estiveram presentes emocionaram o grande escritor e viram o grande dramaturgo emocionado com a arte que brota das áreas secas, sem apoio de secretários de educação ou de cultura, uma arte que nasce no meio do mato, longe do litoral, mas que é fruto de horas de dedicação de Núbia e de seus jovens. Mas esse empreendimento educativo pode deixar de existir porque nem sempre os administradores conseguem ver além de seus narizes ou de suas obras.Espero que o Mestre Suassuna, que cuida tão bem da obra Armorial, não esqueça que, em Belém do São Francisco há um grupo de jovens que luta para ser e viver a arte. Também é uma boa oportunidade para que os comerciantes, os industriais belemitas se emocionem com o secretário de cultura e , num gesto simples e necessário (ajudem economicamente o grupo), necessário porque belo, ajudem as moças e os rapazes que, sob a liderança da professora Núbia Amando Granja, tornam mais agradável a bela secura e mais terna a brisa do São Francisco.

About the Author

Nascido em Carpina, na Zona da Mata Norte de Pernamabuco, cresci no Recife, onde fiz todos os meus estudos em escolas públicas. Sou formado em Teologia no Instituto de Teologia do Recife - ITER; licenciado em História pela UFPE, onde defendi dissertação sob o tema "A Primeira Guerra Mundial na Tribuna religiosa: o nascimento da neo-cristandade" e a tese doutoral "Entre o Tibre e o Capibaribe: os limites da igreja progressista na arquidiocese de Olinda e Recife". Publiquei Anotações para uma visão de Pernambuco no início do século XX, pela Editora Universitária UFPE. Sou pai de Ângelo, Valéria e Tâmisa,filhos de tereza; e avô de Rafael, Lucas, Tereza e Carolina . Agora sou pai de Isaac, filho de Manuela. Tenho pesquisado a cultura e a sociedade da Zona da Mata Norte de Pernambuco e dessas pesquisas publiquei Festa de Caboclo; Estrela de Ouro de Aliança, a saga de Uma Tradição; e Pretinhas do Congo, uma nação africana na Jurema da Mata Norte.