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Fertilidade, chuvas e modernidade rarefeita

O mês de maio tem recebido muitos significados ao longo do tempo, representando muitos sonhos primaveris. Assim tem sido lembrado pelos que vivem no hemisfério norte da terra, costume que foi seguido pelos grupos humanos que foram afetados pela expansão da civilização europeia. Assim é que, para lembrar a fertilidade da terra festivais eram realizados e deram origem às grandes religiões, coisa séria que, apesar do ar festivo, o Maio era o momento de celebrar núpcias e dar início ao processo de renovação da vida.

No Recife e no litoral pernambucano, o mês de maio parece ser um momento especial para as grandes chuvas, ao menos a cada trinta anos. No passado, quando os pântanos ocupavam as várzeas do Rio Capibaribe, era coisa sem maior importância, pois as águas do rio também traziam o enriquecimento do solo para a agricultura. Mas ao final do século XX, após o processo que transformou áreas de agricultura em áreas residenciais, as chuvas de maio trazem graves problemas. Em 1975, a enchente do Capibaribe e as chuvas tornaram explícito que o processo de urbanização não considerou o espaço para o rio, da mesma forma que lembrou a necessidade de cuidar melhor da parte da população que foi levada a morar nos morros. Daquela chuva de três dias surgiram novos bairros na cidade que foi se aproximando de Jaboatão. Situação semelhante, dez anos antes, fez nascer a Operação Esperança, liderada por Dom Hélder Câmara para animar a solidariedade dos mais pobres e com os mais pobres. Era uma tradução prática do sonho do Irmão Roger, de Taizé. Além disso, para cuidar dos homens, os governantes da época tomaram a decisão de domar o rio e cuidaram de construir uma barragem. Mas o cuidado com os homens foi menor, e neste ano de 2015, sem a enchente, as chuvas mostraram que a cidade não se organizou culturalmente para a nova sociedade, e os hábitos rurais da população que foi escorraçada para a expansão da agricultura, permanecem na cidade. Educados para viver de forma quase natural, a população – pobre ou rica – do Recife e suas vizinhas, não se habituou, ou não aprendeu, as novas exigências da guarda dos resíduos que produz, pois, nesta nova sociedade, eles não são absorvidos naturalmente.

E maio vai sendo marcado pelas invasões das águas sobre as ruas e as casas, pois foi próximo aos rios e a antigos riachos que novos conjuntos habitacionais foram construídos sem considerar a natureza. Esse fenômeno pode ser encontrado em quase todas as capitais brasileiras que, desejando muito serem reconhecidas como modernas, fazem rápido curso de Atualização Histórica, como ensinou Darcy Ribeiro, e vivem uma modernidade superficial, uma modernidade de consumo, mas sem entender o que e porque consome tanto. Maio, que era o mês da fertilidade, agora vai se tornando o mês do temor das chuvas. Mas essa situação vale apenas para os que cultivam a memória, como os festivais antigamente faziam.

No mais, é como canta o poeta quase moderno: “deixa a vida me levar, vida leva …”
E esse desleixo vale também para outra parte da vida política, como comprova o comportamento de um deputado, crescido nas férteis áreas da corrupção da Ilha do Maranhão. Mas isso é outra história.

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