Chuvas, Napoleão, Palavras, telefonemas indevidos

Acordo e tudo parece está no seu lugar. A chuva e a imprevidência dos administradores e doa moradores da cidade de Olinda, como de muitas outras cidades brasileiras, impediram-me de chegar à escola de meu filho e fico em casa lendo e escrevendo. Vez por outra olho a pequena Ágora que atinjo nessa rede social onde as pessoas (nem todas) mostram a face e, talvez não saibam, sua personalidade.

Fiz algumas postagens ontem. Hoje estou preferindo ler e, intervir pouco. Mas leio uma frase de Napoleão Bonaparte, “tenho mais medo de três jornais que de cem baionetas.” Napoleão, como nós sabemos, não era um democrata, embora soubesse articular para manter-se no poder. Mas articulações são feitas fora do olhar e do ouvido público. Os jornais tornam público o que se faz às escondidas, ação quase nunca aceita pelos articuladores em busca do poder, seja para nele chegar, seja para dele não sair. É certo que os jornais, seus proprietários, possuem interesses e os explicitam em seus editoriais. Podem ser acusados de apresentarem os fatos à seu modo, mas não podem ser acusados de terem feito os fatos que mostram. Aqueles que agem devem responsabilizar-se por seus atos. Todos os atos carregam consequências. Desde o mais simples “Bom dia” até o telefonema feito apressadamente. Nos tempos de hoje, por conta dessa ausência de privacidade que nós queremos, desse espetáculo em que nós desejamos estar também como protagonistas (nem sabemos qual o texto ou movimentos estarão reservados a nós), essa duplicidade de desejos que se opõem, exigem cuidados e cautela maior. Creio que Napoleão sabia que, mesmo sendo dono do jornal, ele não jamais teria controle sobre o que as suas notícias provocam, assim como nós não temos mais controle sobre as palavras que nós já deixamos sair de nós mesmos. Não tenho controle sobre essas palavras, sobre o que elas farão em meus eventuais leitores.

Esse meu “amigo de face” está defendendo os jornais ou os atacando? A frase de Napoleão Bonaparte posta assim, solta em um contexto confuso só aumenta a confusão. Ela pode ser usada como justificativa para fechar os jornais, e para isso servem cem baionetas; por outro lado, as baionetas podem ser usadas para defender os jornais contra a ação de outras baionetas apoiadas por outros jornais. Dicionários de citações são úteis, nos auxiliam a preencher alguns momentos mortos dos discursos, mas podem iludir os ouvintes e leitores. Como é difícil deixar as palavras saírem! Não sabemos se elas atingirão os objetivos que nos havíamos proposto ao emiti-las. Especialmente nesses tempos que andaram construindo muros os que se dizem construtores de pontes.

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