Março das águas e dos mosquitos

Pois que começou março e, a cada ano esperam-se as chuvas que, diz a sabedoria de Tom Jobim, fecham o verão. Os que vivem no sertão olham o calendário em busca da chuva de São José que, caso cheguem, podem garantir 20 espigas em cada pé de milho, como reza famoso baião de Luiz Gonzaga.

O mês de março passou a ser conhecido como o mês das mulheres, porque a ONU estabeleceu, com justiça e justeza, a homenagem à mulheres operárias que foram sacrificadas no fogo de uma fábrica de tecidos no século XIX para que, as meninas de classe média aprendessem que as mulheres começaram a chegar ao mercado de trabalho na terceira década do século XX. Afinal, esse pessoal do sexo feminino que, morando na periferia e cuida das casas nos bairros mais ricos, serão que são parte do gênero, ou são apenas do sexo? São as contradições do mês de março.

Antigamente o ano começava em março, como está definido nos horóscopos. Lá no hemisfério norte, é o tempo que começa a primavera e a fertilidade campeia, domina os campos após o tempo gélido do inverno, e as Festas de Maio lembravam que era tempo de namorar, noivar e até mesmo casar ou acasalar. Tempo de brincadeira, tempo da páscoa, após os sofrimentos do frio, a experiência da quase morte. Mas a segunda quinzena de março anuncia o tempo fértil, mesmo em terras abaixo da linha do Equador, onde o outono prepara o tempo da chuva. Mas nossa imaginação adequou muito bem os tempos geográficos aos tempos culturais criados acima do equador. Criamos um mundo quase falseado, nem percebemos que estamos nos trópicos. Os nossos ricos, esse um por cento da população, cuida de viajar, alguns dizem que vão estudar no hemisfério norte, que vão fazer cursos, imersão cultural, aprender outro idioma. E viajam muito porque, dizem, as viagens ilustram, e precisam viajar muito, para ver se aprendem algo mais que entrar e sair dos aviões. Antigamente faziam sessão de fotografias em suas casas para os amigos e, quando alguém perguntava: mas onde é isso? Quase sempre diziam que “tudo é tão bonito que a gente se confunde”. Hoje são os selfies ou fotos que não apresentam referências, algumas parecem retiradas de revistas especializadas. No mundo virtual tudo é quase real. Alguns viajarão sempre e pouco lerão do mundo visitado.

Pesquisa recente do Instituto Paulo Montenegro e Ação Educativo diz aponta que apenas 8% dos brasileiros estão plenamente alfabetizados e capazes de ler e interpretar um texto, analisar uma tabela e que 27% da população é analfabeta funcional, gente que não entende o que ouve nem o que ler, apenas segue o instinto para não ser extinta. Essa população, de vocabulário pequeno é que faz o sucesso de programas como os apresentados nos sábados e domingos à tarde nas televisões e na apresentação de partidos políticos nos programas ditos ‘gratuitos’. Apela-se para as cores e para os sentimentos de “paz e amor”, os discursos infantis e infantilisantes do ‘nós e eles’ e do ‘isso ou aquilo’. Pesquisa recente nos Estados Unidos mostra que essa é a razão dos sucesso do bilionário Donald Trump como possível candidato à eleição presidencial dos Estados Unidos. Discurso fácil, que alimenta a docilidade, a fera do nacionalismo, a aceitação do caminho mais fácil que não exige nem mesmo a leitura de um mapa, pois o mundo para esses não têm coordenadas nem abscissas. Tudo é plano e úmido, como as terras de esgoto a céu aberto, ou mesmo da felicidade de ruas calçadas ou asfaltadas que escondem a ausência da rede de esgoto, que nos chegam nas visitas de ratos, baratas, muriçocas e outros voadores que carregam de doenças aos eleitores incapazes de ler o mundo que os rodeia e, também de contar e escrever a história que vivem. São apenas 8% o que conseguem dominar essa tecnologia básica para viver com mais justeza os direitos. Os demais, por essa deficiência que foi construída social e culturalmente, continuarão a confundir direito com favor, mérito com favorecimento.

O mês de Março é sempre a possibilidade das chuvas de São José, cujo cajado floresce, como mandacaru que informa o fim da estiagem, como o movimento de meninas gaúchas que abandonam as bonecas e, comemoram a chegada da primavera/outono lutando pelo direito de tornar menores os shorts, cada mais shorts.

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