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Histórias das e nas escolas que o povo cria.

Todos nós temos nossas predileções e, se algumas delas nos afastam de algumas pessoas, haverá outras que nos aproximem dessas mesmas pessoas. Não podemos excluir de nossas relações apenas por pensarem um pouco diferente de nós, algumas pessoas, pois, é possível que elas tenham mais coisas em comuns conosco do que imaginamos ou percebamos na superfície. É por darmos atenção às epidermes que cultivamos sentimentos racistas, excluímos socialmente, politicamente, religiosamente pessoas de nosso entorno social. Ênfase em demasia em algum aspecto entre muitos que a realidade e as pessoas possuem, escurece nossa visão, impede que a luz nos penetre e, sem percebermos, nos separamos do mundo, criando uma ficção que nos agrada, nos satisfaz por possibilitar exaltar a nossa capacidade de nos ver. Confundimos o mundo conosco, nos fazemos deuses e nos amamos, ou julgamos termos encontrado o amor, ao confundir a nossa sombra conosco. É a idolatria, o culto ao vazio de sentido e damos sentido ao vazio. É a nossa desgraça.

Sempre que me perguntam sobre o Maracatu de Baque Solto, ou sobre os desfiles que clubes, troças, blocos, maracatus, afoxés que as pessoas realizam durante o carnaval, eu digo que vejo a História do Brasil, do meu povo, de suas/minhas experiências que são colocadas nas ruas, nos lembrando de nosso passado de sofrimento, mas posto ali na glória das artes, quase apontando o que poderia ou poderá ser. Afinal, aprendi com Carlos Mesters que o Paraíso, nosso mito da Criação, pode ser uma saudade ou uma esperança. Meu amigo Paulo Cavalcante, carioca mundializado após três viagens aos NOrdeste, logo após os primeiros desfiles das Escolas de Samba do Rio de Janeiro, profetizou que a transmissão que a Rede Globo de Televisão estava a fazer do desfile, era um desrespeito à cultura popular e a história do Brasil. Como é belo o instante em que o historiador rompe e expõe a manipulação, abre caminho para a superação do momento, escapando do processo de alienação espetacular que a sociedade de consumo impõe. O desfile das Escolas de Samba, dos Maracatus dos Baques Virado ou Solto e todas as demais manifestações populares que ocorrem no Reinado de Momo, são aulas, são reflexões de nossas vidas, das contradições que nos fazem ser o que somos. A cada carnaval somos chamados a ver como se reconta a nossa história e somos convidados, como Paulinho da Viola, a ver as coisas que estão no mundo e não apenas no que dizem as academias oficiais compostas por quem quase sempre vê o povo tão distante, e cria essas distâncias, que já não se reconhece nele. Nem o povo se vê nelas.

Claro que o carnaval é um festival que aliena, assim como algumas (às vezes quase todas) aulas de história, filosofia, psicologia ou sociologia em nossas universidades e nos encontros que elas e seus professores realizam para conversar sobre o povo. E então se louvam por seus conhecimentos insossos, sem sabor. Saber sem sabor não é sabedoria.

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