o medo do retorno de março de 1964

O mês de março deste ano de 2014 inicia com o sentimento do passado, um sentimento que leva alguns a imaginar que será reeditado o movimento de 1964. Esse sentimento tem sido alimentado por setores favoráveis e por setores contrários ao ocorrido naquele primeiro de abril que coroou as conspirações dos vencedores e dos perdedores de então. Embora o Brasil tenha dificuldade de aprender com os seus erros, assim como muitas outras nações, não há espaço para a reedição daqueles atos que levaram à ditadura que se solidificou em dezembro de 1968, um ano que para muitos ainda não terminou. Embora não seja prudente ficar anunciando o que vai acontecer ou que não vai acontecer, não vejo caminho para a reedição do passado, mas posso perceber que um discurso sobre essa reedição seja alimentado por um discurso que leva os mais inocentes que eu a acreditarem nesse retorno do passado: é que ele tem medo e alimentam esse medo, o medo de alguns que hoje estão no poder, vivem alimentando este medo para que possam ali manter-se. Em 1964 os golpistas usaram o medo do comunismo como grande mote, hoje parece que se está a cultivar o medo do anticomunismo. Os debates que estão sendo e serão levados a efeito, especialmente por historiadores, poderão estar marcados com esse tipo de medo, com os cientistas do passado desentendo o presente, mais informados por adesões ideológicas que por visitas aos arquivos. E digo isso sem negar que existam grupos de saudosistas inconformados com a sociedade criada a despeito de suas ações e vontades individuais. É certo que apesar de  o general Newton Cruz ter sido derrotado sempre existirão os que como ele entendem que a sociedade seria melhor com o Congresso Nacional fechado, mas esses grupos não têm possibilidade de enfrentar uma sociedade que, bem ou mal, está aprendendo a viver com a liberdade. Mas em nossa sociedade ainda há grupos que sonham com a possibilidade de terem a ditadura de proletários a definir e impor o que é o melhor para o ingênuo povo que precisa de babá e não de líderes. Devemos nos esforçar para evitar que as nossas reflexões históricas não se transformem em discursos histéricos por não serem mais históricos, ao tomarem por base discursos eleitorais e não realidades objetivas. Historiadores devem ser mais comprometidos com a busca da verdade histórica, embora como cidadãos tenham suas escolhas partidárias, mas se não souberem separar essas instâncias poderão tornar-se historiadores oficiais e, então perderão sua credibilidade histórica em troca da aceitação fácil nos espaços da conjuntura atual.

A pedagogia do medo não deve fazer presença em nossas comunicações nem em nossas salas de aulas.

 

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