Carnaval e educação

É impressionante o que eu vi, ao tempo que ouvi, durante três dias de carnaval em uma cidade litorânea da Paraíba. Foram dias e noites de um só ritmo, uma única e medíocre batida, a suingueira. A palavra sugere balanço e ele pode ser visto nas ancas de rapazes e moças, sendo que os rapazes conseguiam ser mais flexíveis que as moças. Elas paravam para observar como dois rapazes se completavam – côncavo e convexo, e então treinavam entre si. Muito criativo.   E depois vinha outro “trio elétrico” e, com ele a mesma batida, rapazes semelhantes, e moças bonitas. Muito bonitas as moças. As do lugar bem que eram tabajaras com seus longos cabelos negros, ajambadas na cor de pele macia ao olhar. Rapazes oxigenados na ânsia de chamar atenção: “somos dinamarqueses”, “suecos”. Os corpos desnutridos diziam que não. É interessante a quantidade de homens negros com a calvície encomendada ao barbeiro. A cada dois dias uma navalhada.  A impressão é que deixam, a mim, é a necessidade de esconderem o que a natureza lhes pôs acima do cucoruto, o cabelo pixaim que os colocam distante do ideal branco europeu. Como dói essa ausência de identidade!

A batida suingueira repetida ficou de tal modo em minha mente eu sonhei com as aulas de Educação Artística. Sei que esses rapazes, em algum momento foram alunos das escolas públicas e, com certeza tiveram aulas dessa disciplina que lhes devia educar a sensibilidade para as artes, proporcionando-lhes a oportunidade de ler sobre teatro (já não digo fazer pois nossas escolas não possuem espaço para esta atividade), ver pinturas, esculturas, ler poesias, ler romances, ouvir músicas de diversos estilos e épocas, etc.. Mas provavelmente nada disso ocorreu como bem demonstra o apego a essa batida única e medíocre que toma conta dos espaços nos cérebros e corpos dessa geração. Os professores foram ensinados que não devem ensinar,  apenas estimular o que as crianças e jovens que lhes são entregues já fazem e sabem. Assim é que nas festas populares os prefeitos, em grande número, para garantir esses votos possíveis, financiam bandas ridículas e medíocres e distribuem camisas para o sexo protegido. É isso que lhe dá a impressão de serem progressistas. Mas auxiliam a cristalizar um passado que permitia apenas uma conduta, a da aceitação daquilo que cai da mesa do seu senhor. O mais triste é o silêncio medroso que permite o crescimento do poder do barulho como música ou arte.

Leio que não houve morte em Olinda, PE,  durante o carnaval. Isto é bom.

About the Author

Nascido em Carpina, na Zona da Mata Norte de Pernamabuco, cresci no Recife, onde fiz todos os meus estudos em escolas públicas. Sou formado em Teologia no Instituto de Teologia do Recife - ITER; licenciado em História pela UFPE, onde defendi dissertação sob o tema "A Primeira Guerra Mundial na Tribuna religiosa: o nascimento da neo-cristandade" e a tese doutoral "Entre o Tibre e o Capibaribe: os limites da igreja progressista na arquidiocese de Olinda e Recife". Publiquei Anotações para uma visão de Pernambuco no início do século XX, pela Editora Universitária UFPE. Sou pai de Ângelo, Valéria e Tâmisa,filhos de tereza; e avô de Rafael, Lucas, Tereza e Carolina . Agora sou pai de Isaac, filho de Manuela. Tenho pesquisado a cultura e a sociedade da Zona da Mata Norte de Pernambuco e dessas pesquisas publiquei Festa de Caboclo; Estrela de Ouro de Aliança, a saga de Uma Tradição; e Pretinhas do Congo, uma nação africana na Jurema da Mata Norte.