A celebração da humanidade

 

A COMUNHÃO DA HUMANIDADE

 

A passagem para novembro é momento interessante, pois que nos põe em contato muitas tradições que tocam e fortalecem nossa humanidade,  esses aspectos e costumes comuns que nos tornam bem mais semelhantes que nossas individualidades e características identitárias supõem e nosso autocentrismo deseja. Tradições celtas comemoram a passagem como uma celebração Druída, com as bruxas a celebrarem a vida, uma das muitas celebrações da fertilidade da terra, doadora da vida. Com muita inteligência a igreja cristã fez celebrar um dos seus dogmas mais belos, o da Comunhão dos Santos, no primeiro dia de novembro. Celebração que pretende auxiliar a reflexão sobre a unidade humana, os Santos que já viveram seu momento na terra, os Santos que ainda estão na peleja do tempo presente e aqueles que já estão vivos nos desejos dos viventes e que virão e todos estão presentes no festejo da eternidade.

Entretanto se a semente não morrer não dará frutos e a vida é essa celebração constante da recriação que passa pelo sofrimento da separação momentânea. No período medieval europeu as dúvidas pareciam dominar o mundo por conta de tanta peste e, apesar do otimismo da Ressurreição, o medo transformou a momento da morte em Dia de Ira e de Calamidade, quase esquecendo que ela é o momento do encontro com o Ser. Um monge, em clausura beneditina, após a morte de um irmão passou a celebrar esse aniversário, como se costumava fazer na data dos martírios dos primeiros cristãos. Nessa celebração é a vida que é o centro, a lembrança dos momentos vividos antes e os que serão eternos quando o reencontro ocorrer. Assim foi nascendo o Dia dos Finados, no dia seguinte ao dos Santos. Essas tradições transplantadas para as terras americanas mesclaram-se com alguns ritos daqueles humanos que já estavam a viver nessa natureza e que em tudo experimentava a presença da divindade. Os espíritos das Matas, protetores dos animais: sacis, boitatás, iaras, anhanguera, caiporas juntaram-se aos orixás carregados no coração de africanos que aqui encontraram novos rios, cachoeiras, matas e celebram desde então, às vezes de maneira sincrética, às vezes na pureza que se pensa ter, a vida. E tudo parece confluir no início deste novembro.

A festa da Comunhão de Todos os Santos está sendo, no Recife, emulada por uma Marcha para Cristo, promovida por várias igrejas evangélicas no dia dos Finados e antecede em vinte quatro horas a celebração dos Orixás que pretende juntar o “povo do santo” em uma afirmação de sua existência e identidade, marcando o início do dito Mês da Consciência Negra, para nos lembrar que somos todos os continentes, todos os povos: somos a vida.

Escrito em 2 de novembro de 2013

About the Author

Nascido em Carpina, na Zona da Mata Norte de Pernamabuco, cresci no Recife, onde fiz todos os meus estudos em escolas públicas. Sou formado em Teologia no Instituto de Teologia do Recife - ITER; licenciado em História pela UFPE, onde defendi dissertação sob o tema "A Primeira Guerra Mundial na Tribuna religiosa: o nascimento da neo-cristandade" e a tese doutoral "Entre o Tibre e o Capibaribe: os limites da igreja progressista na arquidiocese de Olinda e Recife". Publiquei Anotações para uma visão de Pernambuco no início do século XX, pela Editora Universitária UFPE. Sou pai de Ângelo, Valéria e Tâmisa,filhos de tereza; e avô de Rafael, Lucas, Tereza e Carolina . Agora sou pai de Isaac, filho de Manuela. Tenho pesquisado a cultura e a sociedade da Zona da Mata Norte de Pernambuco e dessas pesquisas publiquei Festa de Caboclo; Estrela de Ouro de Aliança, a saga de Uma Tradição; e Pretinhas do Congo, uma nação africana na Jurema da Mata Norte.