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Francisco de Assis e o edifício Caiçara

 

Começando o mês de outubro. Depois dos santos Cosme e Damião, médicos que foram feitos protetores das crianças, vem o mês de São Francisco de Assis, também muito popular: o primeiro burguês que decidiu reformar o mundo, primeiro repondo pedras, depois apontando para os corações humanos. Sua vida é uma parábola: parece nos dizer que animais selvagens – lobos, pássaros, peixes – estavam mais dispostos a escutá-lo que os homens. No século XIII o papa Inocêncio III fez o possível para não se encontrar com Francisco. Agora tem um Francisco na cadeira que Inocêncio III sentou. Colisão de nomes e trajetórias. Bem, este é um franciscano/jesuíta, com a mística dos dois. Neste quatro de outubro lembremos esses dois renovadores da Igreja e inovadores sociais.

As inovações sociais aparecem simbolizadas em algumas ações. No início do século XX a Praia de Boa Viagem, no Recife, começou a ser ocupada pela população que pode comprar terrenos na época que se descobriu como o banho de água salgada faz bem à saúde. As margens do Rio Capibaribe foram deixando de ser endereço supimpa e os pescadores foram sendo expulsos das praias do Pina e de Boa Viagem. Cada época e cada momento social cria suas referências e, o Edifício Caiçara tornou-se referência para os que ocuparam Boa Viagem na década de quarenta, bem como para aqueles que, não morando naquela praia, iam  banhar-se ali até os anos oitenta ou noventa. Mas como lembra um livro bíblico, um adolescente muito  famoso em sua época pouco será lembrado duas gerações mais tarde. Assim foi com o edifício Caiçara, com a Casa Navio e outros edifícios que marcaram a arquitetura do período e serviam de referência para banhistas de final de semana. A queda desses edifícios para atender o boom imobiliário para apartamentos de luxo segue o mesmo princípio que afastou os pescadores ao longo do século XX. A queda do Edifício Caiçara lembra que para ele e outros edifícios serem construídos muitas caiçaras fossem derrubadas. Poucos são os adolescentes que ficam na memória das gerações que lhe sucedem, esses poucos são referências mais importantes do que parada de ônibus. É assim que a “igrejinha” de Boa Viagem ainda se mantém. É uma referência mais profunda na história, não apenas na memória.

A questão é que a história é feita do lixo deixado pelas gerações e, em nossa sociedade o lixo escrito é muito importante, além do lixo monumental significativo para o conjunto social, não apenas para um grupo. Escreve-se muito sobre os monumentos de pedra e cal, assegurando-lhes, assim, a sua permanência na época dos novos adolescentes. Talvez seja essa a razão de monumentos referentes a grupos menos importantes econômica e financeiramente sejam mais facilmente descartáveis. Acontece que os documentos escritos, ou escritos que discutem os documentos carecem de leitores e, as mais recentes tabelas do IBGE mostram que o número de analfabetos no Brasil voltou a crescer, embora a propaganda dos programas de alfabetização tenha aumentado.

O adolescente (na Idade Média essa categoria não existia) Francisco da cidade Assis não tem sido esquecido pelos adolescentes das gerações que lhe sucederam. Reconstruir, manter inovando, inovar mantendo, rompendo e fortalecendo, afirmar valores positivos e ter a coragem de dizer não ao que prejudica ao conjunto da humanidade, essas são as causas da permanência de Francisco e Ignácio.

 

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