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Recife: chuvas, rios, gente e ocupação irresponsável

Passados quinze dias de junho deste ano de 2013  notamos que as muitas águas desejadas caem, em muitos lugares, de maneira indesejada. Sabemos que as chuvas são comuns nesta época do ano em nossa região, mas sempre nos surpreendemos quando elas chegam, não por elas, mas porque elas escancaram a maneira irresponsável de como ocupamos o espaço físico. Nas décadas de setenta a noventa do século passado, as chuvas deixaram à mostra que a permissão que os governos populistas deram para a ocupação incontrolada dos morros do Recife levou à morte de muitos. Aquela permissão foi tacitamente dada, para sanar a questão dos mucambos que foram construídos pelos mais pobres nos mangues dos rios Beberibe e Capibaribe enquanto a “cidade” estabelecia-se nos espaços mais firmes. Quando os mucambos já haviam aterrados os mangues, então eles se tornaram desnecessários e seus habitantes foram postos a correr em direção aos morros, onde certas famílias amealharam fortunas cobrando foros, enquanto a administração municipal não chegava para cobrar o imposto territorial. Aquela era a época ainda marcada peço jeito português de fazer cidades nas desembocaduras fluviais. Vez por outra as águas pluviais causavam problemas, mas este eram sentido pelos mais pobres que ainda estavam estabelecidos nas “regiões ribeirinhas”, como dizia famoso alcaide dos anos sessenta do passado século. Foi então percebido ser necessário domar o rio que teimava em retomar os espaços perdidos. Por decisão do ditador de plantão, após uma grande cheia na década de setenta, o rio foi domado e os habitantes ribeirinhos foram tangidos para terras de antigos engenhos, com seus proprietários devidamente indenizados. Cresceu o Recife para o sudoeste e Paulista, cidade ao norte do Recife recebeu incentivo para crescer, o mesmo ocorrendo a Camaragibe, este com mais sorte recolheu uma pequena elite de professores universitários no platô balneário, antes conhecido apenas por alguns e espaço para treinamento militar. Domado o rio suas antigas margens voltam a ser habitadas, agora por torres habitacionais, agora seguindo modelo estabelecido na nova metrópole dos novos tempos pós-industrial: imensas torres, cada vez mais altas como novas Babel. As ruas desaparecem gradativamente cedendo espaços para imensos corredores de ônibus e pedestres que, em dias de chuva coincidentes com marés altas, assiste e sofre o retorno do rio contido e dos afluentes que foram mortos e devidamente tapados. Agora lembro que, ao final do antigo Rio Bultrins, hoje Canal do Bultrins, há um edifício nomeado Rio Tapado. Tapados ao longo dos anos, esses riachos periódicos já nem mais estão na memória dos habitantes das cidades de Olinda e Recife. A nova civilização precisa de cada vez mais espaço para os automóveis passarem e serem vistos, pois em nossas cidades, mais que meio de transporte eles são bens ostentatórios, quase expressão de nobreza ou divindade. Mas as chuvas chegam e surpreende os novos aristocratas e fazem parar as modernas carruagens e, da mesma maneira que as águas invadem os antigos leitos dos riachos, os jornais impressos e os noticiosos dos rádios e televisões são inundados com reclamações sobre a impropriedade ou incúria dos administradores do espaço público. A chuva represada e misturada com esgotos que molha e enlameia os pés dos que saem dos ônibus também suja os modernos símbolos de poder e faz parar avenidas criadas para atender os que vivem nos pombais modernos. Nas chuvas deste ano não ocorreu mortes nos morros. A morte registrada ocorreu em uma avenida causada por um fio elétrico em rua que tornara a rio.

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