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Padroeiros e padroeiras do Recife

Hoje é o dia da padroeira da cidade do Recife, Nossa Senhora do Carmo. Esta festa lembra, reaviva a tradição religiosa – cristã católica – uma das bases formadoras da cultura, do ideário e imaginário brasileiros. Essa tradição, ainda que não mais a única, continua sendo a mais cultivada pelos brasileiros. Sendo muito plástica desde o princípio de nossa formação, continua sendo capaz de aglutinar, explicitamene, mais de sessenta por cento dos brasileiros religiosos.

Uma das mais antigas povoações do Brasil, o Recife multicultural, como tem sido apregoado pela adminsitração da cidade, tem vários protetores, ou padroeiros, cada um nos dá uma representação da história da cidade.

Nos primeiros momentos do Recife, quando ainda era uma simples povoação de pescadores e se tornava o porto de Pernambuco, substituindo o de Igarassu, eram são Pedro Gonçalves e Santelmo, os santos preferidos para as orações dos recifenses. Suas capelas foram destruídas no processo de modernização do porto do Recife, ocorrido início do século XX. No século XVII, quando o povoado começou a ser vila e cidade, sob a influência dos franciscanos, esses mendicantes que já nasceram com a vocação de urbanidade, santo Antonio passou a ser o preferido, inclusive sendo convocado para assumir posto militar na defesa do litoral.

No século XIX cresce a importãncia dos frades carmelitas na sociedade recifense, em uma época de mudanças, tanto na vida urbana quanto na religião católica que estava iniciando uma reforma interna, e essa reforma afetou as práticas de expressão externa da religiosidade dos católicos. Essas mudanças fizeram o Recife receber uma madrinha, uma padroeira, sem perder o padoreiro. No final daquele século e início do século XX, quando a cidade era o ponto de encontro das elites e das sociedades que formavam o hoje chamado Nordeste, a festa de Nossa Senhora do Carmo começou a superar as festas dedicadas a Santo Antonio.

As festas dedicadas a Santo Antonio, Nossa Senhora do Carmo anunciam e rememoram movimentos do Recife mais antigo, e suas festas foram aclamadas oficialmente pelas autoridades civis e religiosas. Ao longo do século passado, ao mesmo tempo em que os recifenses católicos continuavam a louvar Antonio e a Senhora do Carmelo, as populações mais simples voltaram-se a uma outra devoção, à Senhora da Conceição. A devoção não surgiu de uma iniciativa do clero nem dos vereadores da cidade, foi a população mais pobre da cidade, que crescia também com a migração ocorrida após a Abolição da escravatura e com a crise dos engenhos e usinas, uma população que foi ocupando os morros da Zona Norte da cidade, que a criou.

As festas religiosas católicas mostram como os recifenses organizam a sua vida espiritual. Os mesmos recifenses estão presentes em cada uma dessas festas. Louvando os seus protetores e afirmando a sua pertença, seja à religião seja à cidade. Embora, diferentemente do que pensavam os católcios nos anos trinta do século XX, não é necessário ser católicos para ser recifense. Entretanto, parece ser saudável, para a cidade, sempre lembrar que as festas são uma celebração pelas coisas que já foram realizadas e prenúncio de novas realizações.

Escrevo isso lembrando como me parecia grande, maior que hoje, as festas do Carmo, no meu tempo de criança. Certo que para as crianças, para os pequenos, tudo é gigante. Entretanto, as muitas opções de lazer, o êxodo da população que habitava os bairros do Recife, Santo Antonio, São José e Boa Vista, afetou a frreqüência à festa do Carmo. É que os tempos são outros; nem melhores nem piores, são apenas outros. Como os anteriores, este tempo também é criado pela cidade.

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